sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Free me

Saudações a todos os que visitam o blog,


Trago hoje aqui uma composição simplesmente emocionante e profunda. Não é de minha autoria, mas eu não poderia deixar de divir com vocês. A canção é de uma banda vegana de hardcore chamada Goldfinger. Vai a letra e a tradução ao lado. Em baixo, vai a miniatura de um clipe que não é oficial, mas é bom, e dá pra ouvir a música, que é o mais importante. Espero que gostem. Se gostarem, divulgue para aqueles a quem também possa servir.

Prometo que logo mais trago alguma coisa autoral para dividir com vocês.

Abraços!
Ortegal
(Ah.. eu escrevo sobre outros temas nesse blog, se alguém tiver interesse em visitar: www.cartadesmarcada.blogspot.com )






Free me (Godfinger)Me Libertem (Goldfinger)


I didn’t ask you to take me from here.Eu não te pedi para me tirar daqui
I didn’t ask to be broken. Eu não pedi para ser quebrado
I didn’t ask to stroke my hair. Não te pedi para acariciar o meu pêlo
You treat me like a worthless token. Ou me tratar como uma ficha sem valor


But my skin is thickMas a minha pele é grossa
and my mind is strong E a minha mente é forte
I am build like my father was Eu cresci como o meu pai
I done nothing wrong. Eu não fiz nada de errado


So free meEntão me libertem
I just wanna feel what life should be. Eu só quero sentir como a vida deveria ser
I just want enough space Eu só quero espaço o suficiente
to turn around para me virar
and face the truth. E encarar a verdade
So free me Então me libertem


When do you gonna realize.Quando vocês vão perceber
You’re just wrong Que estão simplesmente errrados?
You can’t even think for yourself Vocês não conseguem nem pensar por si próprios
You can’t even make up your mind Não conseguem nem pensar
So my mind’s a jail Então a minha mente é uma jaula
I hate the whole goddamn human race Eu odeio toda a raça humana
What the hell do you want from me O que diabos vocês querem de mim?
Kill me if you just don’t know Me matem se vocês não sabem
or free me. Ou... Me libertem


I just wanna feel what life should beEu só quero sentir como a vida deveria ser
I just want enough space to turn around Eu só quero espaço o bastante para me virar
‘cause you’re all fucked Vocês estão todos fodidos
some day maybe you’ll treat me like you. Quem sabe um dia vocês me tratem como um de vocês



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tipos que conheci por aí - Parte I

Por Dennis Zagha Bluwol


Pedro
- Mas eu não como muita carne. E mais peixe.
Conheci Pedro em uma festa e esta foi a última frase que me dirigiu.
Por que obtive esta resposta, eu não sei. Estava apenas respondendo sua pergunta sobre o porquê de não achar eticamente correto se alimentar de animais. Ou melhor, tratar os animais como propriedade, cercear suas liberdades, impor-lhes sofrimento.
De qualquer forma, sei lá o porquê, esta foi a última frase que me dirigiu. Talvez tenha estranhado meu longo silêncio. Às vezes tenho a impressão que algumas pessoas se arrependem de tentar puxar uma conversa séria em uma festa. Quantos “nossa, calma, era só uma pergunta, não precisa filosofar” eu já escutei...
Demorei pra responder ao Pedro pois tentei entender o que significa “não muita”. Dizem que em uma cadeia americana um colega de corredor de Charles Manson jurava ser mais nobre por ter matado três pessoas a menos. O carcereiro, ouvindo, os achava demoníacos. Quando queria alguém morto, pagava por serviços devidamente credenciados. Não seria certo matar com as próprias mãos. Às vezes, sim, precisava executar poucas pessoas, mas sempre por mandato das instâncias governamentais superiores. Legalmente correto, como previsto em lei, o que não caracteriza um crime, claro. Muito menos um pecado.
Talvez, a confusão entre respeito e quantidade de sofrimento imposto seja uma questão importante para compreender nossa cultura.
Enfim, voltando ao Pedro, senti que ele esperava um sorriso de aprovação. Talvez fosse um grande zoólogo, possuidor da descoberta de que peixe é realmente um fruto que nasce em grandes florestas submarinas. Preciso reler Julio Verne, ver se acho esta informação relegada por nossa ciência ocidental. Mesmo assim, parte importante de meu silêncio foi tentando sacar a diferença entre comer mais peixe ou mais boi. Talvez a carne branca invoque a paz, sei lá. Talvez tenha a ver com a Era de Peixes. Ou melhor, com a Era de Aquário, ao menos pelo nome mais adequada à atual condição de vida e liberdade dos animais da Terra. Talvez matar o que pareça ser menos prejudicial ao organismo humano seja mais aceitável eticamente. Vai entender a lógica de pensamento de cada um! Eu diria que não há lógica, apenas reprodução de hábitos e vícios de gerações anteriores, mas se dissesse isto ao meu novo conhecido, seria tido como arrogante.
Respiro...
E tento recomeçar com calma o diálogo sem chamar meu colega de ilógico. Vá que ele achasse que o estava chamando de irracional. Fiquei com medo da reação, haja visto que possuir outra racionalidade que não a humana, ou mesmo não operar com mecanismos racionais são erros graves, merecedores de condenação à prisão, tortura e morte. Assim está nas leis.
Tentei dar alguma resposta, mas percebi que Pedro já estava longe, em direção ao bar. Fiquei aliviado, é verdade, embora angustiado, sempre.

Anna e João
Anna e João eram casados e honestos.
Anna havia sobrevivido por vinte dias a uma queda de avião na cordilheira dos Andes graças aos membros de seus falecidos companheiros.
João entrava na mata nu, pulava em cima de um búfalo, rasgava-o com suas próprias unhas, comia sua carne crua, chupava o sangue quente, sugava o interior de suas entranhas, assim como vermes e outros parasitas (separava os mais graúdos para comer com cerveja de noite), roía a cartilagem dos ossos e mascava os olhos como chiclete.

Julia
Julia havia largado o ambiente violento da cidade. Mudou-se para o campo, onde, aos finais de semana, saia para pescar com os amigos.

Martha
Martha amava os animais. Toda tarde dava um belo bife aos seus gatos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

nova ética

por Rafael Bessa

adentro rubras paredes onde não há luz do dia
percebo seres, de tristes olhos, tumores, agonia
seus corpos dilacerados apesar da senciência

que crime cometeram estes seres tão chagados?
para, como messias das línguas, serem sacrificados
para serem torturados qual redentores da ciência

e pergunto se em mim existe raro defeito
por ainda ter os olhos ligados ao peito
por não saber ver razão na boca que devora

pois ao visitar o não-humano sofrimento
o rosto que vê é o mesmo em lamento
e o olho que crê é o mesmo que chora

qual Francisco pregando à outras espécies
para a glória celeste elevo minhas preces
clamando compaixão por aqueles soturnos olhares

e sei que de extremismo ou loucura me acusarias
por não querer jaulas maiores e sim jaulas vazias
mas urge nova ética além de hábitos alimentares

urge socorrer aqueles olhares
urge nova ética

--

É a minha primeira postagem desde que o Daniel me convidou para o blog, a quem agradeço muito o convite e me desculpo pela demora em contribuir. Apesar de escrever poesia há anos, nunca havia escrito sobre especismo, libertação animal ou veganismo. Espero poder contribuir com frequencia daqui pra frente.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Vozes Vegetarianas na Literatura: Bashevis Singer


Isaac Bashevis Singer (1904-1991), judeu e Prêmio Nobel de Literatura, foi outro escritor que abordou brilhantemente a temática vegetariana, em várias de suas obras. A tese de Bashevis Singer é clara: todos nós, seres humanos, por conta de nossos hábitos de consumo e de nossa cultura antropocêntrica, somos responsáveis por um crime monstruoso, um verdadeiro holocausto animal. O vegetarianismo de Bashveis Singer é bastante antológico, sendo citado, por exemplo, pelo escritor Moacyr Scliar no seu prefácio à coletânea “47 Contos de Isaac Bashevis Singer”, publicada pela Companhia das Letras em 2004. A menção de Scliar ao vegetarianismo de Singer, porém, não é lá muito abonadora, expressando bem o senso comum acerca dos vegetarianos, a imagem distorcida que as pessoas em geral têm daqueles que decidem não compactuar com a violência contra os animais e, por isso, optam por uma alimentação sem carne: “Não era fácil conviver com Singer, um homem que tinha suas idiossincrasias; era inclusive vegetariano.”


Singer, nascido na Polônia, filho e neto de rabinos hassídicos, emigrante para Nova York em 1935, construiu um universo ficcional que remete continuamente à infância e à adolescência vividas na Europa e à atmosfera de intensa religiosidade em que foi educado, de onde vêm os elementos predominantes de seu estilo e o estímulo da intenção de rever um “mundo morto”, o das pequenas comunidades judias nas aldeias polonesas (chamavam-se shtetl as povoações ou bairros de cidades com uma população predominantemente judaica). Seus contos, escritos de maneira simples, sem grandes sofisticações – revelando, no entanto, grande capacidade criativa e penetração crítica –, são comparáveis somente aos contos dos grandes nomes da literatura universal, como Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe, Hoffman e Machado de Assis. Toda essa criatividade e essa crítica são, frequentemente, usadas a favor da causa vegetariana.


Um exemplo que fala por si é o seguinte trecho da novela “O Penitente”, em que o narrador, um judeu relapso que decide se voltar à espiritualidade e abandonar as coisas mundanas, tornado-se justo e virtuoso, se questiona sobre a exploração dos animais:

Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais de uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.


Entre os contos de Bashevis Singer, que se tornou vegetariano na metade da década de 1960, destaca-se a pequena obra-prima “O Abatedor”, que conta a história de um homem, Yoineh Meir, um homem que, pela sucessão natural, seria o próximo rabino de sua aldeia, Kolomir, mas que, por causa de picuinhas dentro da comunidade judaica, acaba sendo preterido por outro. Para que não ficasse sem fonte de renda, porém, “caridosamente” o nomeiam o novo abatedor ritual da cidade. E é aí que começa o pesadelo do pobre homem, sujeito de alma sensível e que não suporta a visão de sangue. Frente à sua relutância em assumir a nova ocupação, o próprio rabino lhe diz que o homem não pode ser mais compassivo que o Todo-Poderoso, fonte de toda compaixão (não é mera coincidência qualquer semelhança com o clássico e tolo comentário “mas Deus fez os bichinhos para serem Comidos” que vegetarianos ao redor do mundo, há séculos, são obrigados a escutar todos os dias). Yoineh cede, assume sua nova função, mas o dia-a-dia no ofício se torna uma tortura:

Muitas vezes por dia, Yoineh Meir repetia para si mesmo as palavras do rabino: “Um homem não pode ser mais compassivo que a Fonte de toda a compaixão.” A Torá diz: “Deves matar teu rebanho e tua manada conforme te ordenei.” No monte Sinai, a Moisés foram ensinados os modos de matar e abrir o animal em busca de impurezas. É tudo um mistério de mistérios: vida, morte, homem, animal. (...)
E, no entanto, Yoineh Meir não encontrava consolação. Cada tremor da ave abatida provocava em Yoineh Meir um igual tremor nas entranhas. A morte de cada animal, grande ou pequeno, causava-lhe tanta dor quanto se estivesse cortando sua própria garganta.

O pobre homem passa a ter dificuldade para dormir, para comer, passa a viver em eterno drama de consciência e, cada vez mais, passa a questionar os dogmas religiosos e sua visão antropocêntrica (muito ao contrário do que se poderia esperar em um texto de um autor que, como é o caso de Bashveis Singer, teve sólida formação e vivência religiosa):

Yoneh Meir estava achava que nem o próprio Messias podia redimir o mundo enquanto se praticasse injustiça contra os animais. O certo era que tudo pudesse renascer dos mortos: cada bezerro, peixe, mosquito, borboleta. Até no verme que rasteja na terra fulgura uma centelha divina. Quando se abate uma criatura, abate-se Deus...
“Ai de mim, estou perdendo a cabeça!”, murmurou Yoineh Meir. Uma semana antes do Ano-Novo, houve um aumento nos abates. O dia inteiro Yoineh Meir passava ao lado de uma fossa abatendo galinhas, galos, gansos, patos. Mulheres empurravam, discutiam, tentavam chegar primeiro ao abatedor. Outras faziam piadas, riam, brincavam. Voavam penas, o pátio estava cheio de grasnidos, de tagarelice, do canto dos galos. De vez em quando, uma ave gritava como um ser humano. (...) Lá ficou até o pôr-do-sol, e o fosso se encheu de sangue.

Após esse dia de intensa matança às vésperas do ano-novo, Yoineh Meir vai à loucura: na calada da noite, sem conseguir conciliar o sono, sai de casa, joga fora objetos sagrados e clama:

“Não quero nenhum dos Seus favores, Deus! Não tenho mais medo do Seu Juízo! Sou um traidor de Israel, um transgressor por vontade própria”, Yoineh Meir gritou> “Tenho mais compaixão que o deus Todo-Poderoso, mais, mais! Ele é um Deus cruel, um Homem de Guerra, um Deus de Vingança. A Ele não sirvo! O mundo está abandonado!”. Yoineh Meir riu, mas as lágrimas correram por suas faces como gotas ferventes.

Tresloucado, fora de si (mas, paradoxalmente, experimentando uma lúcida visão do horror dos crimes perpetrados contra os animais com as bênçãos das religiões), ele se embrenha na floresta,em direção ao rio, aos gritos:


“Pai do Céu, sois um matador!”, gritou uma voz dentro de Yoineh Meir. “Sois um matador e o Anjo da Morte! O mundo inteiro é um matadouro!”

No final do conto, surge, em toda sua força, o protesto final de Yoineh Meir:


Yoineh Meir caiu num choro que ecoou pela floresta em muitas vozes. Levantou o punho ao céu: “Demônio! Assassino! Fera devoradora!”.

Dias depois, seu corpo é encontrado boiando no rio.


Outro conto interessante, embora bem menos dramático, é “O Cabalista de East Broadway”. Nele, um escritor judeu que vive em Nova Iorque, claramente um alter ego do próprio Singer, narra-nos seus casuais encontros, ao longo de vários anos, com uma figura singular: Joel Yabloner, um velho autor iídiche especializado na Cabala e que, a despeito de ter muitos admiradores em Israel, preferia viver quase anonimamente e de maneira espartana nos Estados Unidos. Ao descrever o cabalista, o escritor-narrador, um ovolactovegetariano, não deixa de demonstrar sua admiração pelo fato de Yabloner ser um vegetariano estrito, embora a descrição de Yabloner, correlacionando seu estrito vegetarianismo com uma postura ascética, seja um tanto caricata:


Joel Yabloner, alto, magro, o rosto amarelo e enrugado, tinha a cabeça brilhante sem um único fio de cabelo, o nariz seco, faces encovadas, um pomo-de-adão saliente no pescoço. (...) Vivia com os poucos dólares por semana que o Sindicato dos Escritores Iídiches podia gastar com ele. Seu apartamento na rua Broome não tinha banheiro, telefone, aquecimento central. Ele não comia nem peixe, nem carne, nem mesmo ovos ou leite: só pão, legumes e frutas. Na cafeteria, sempre pedia uma xícara de café preto e um prato de ameixas.


Certo dia, após assistir quase por acaso a uma palestra proferida por Yabloner, o escritor-narrador é convidado para participar de um banquete em homenagem a ele:


Descobri que a palestra havia sido organizada por um comitê que se encarregara de publicar a obra de Yabloner. Um dos membros do comitê me conhecia e perguntou se eu gostaria de comparecer a um banquete em honra da Yabloner. “Como o senhor é vegetariano”, acrescentou, “é a sua chance. Vão servir apenas vegetais, frutas, nozes. Quando se tem a chance de um banquete vegetariano? Uma vez na vida.”


Pode-se dizer, então, que esse conto ilustra, com propriedade e leveza, certos aspectos mais corriqueiros da “vida vegetariana”, como, por exemplo, a dificuldade em encontrar alimentos em eventos sociais e uma certa “tensão” existente entre vegetarianos estritos (ou veganos) e ovolactovegetarianos.
Haveria muitos outros exemplos, mas vamos ficando por aqui.

Vale a pena, contudo, relatar um emblemático episódio da vida do escritor. Quando Singer desembarcou em Estocolmo, no dia 6 de dezembro de 1978 para receber o Prêmio Nobel, foi cercado por dezenas de jornalistas que o bombardearam com dezenas de perguntas: “Por que o senhor escreve em iídiche?”; “Quais os escritores que mais o influenciaram?”; “O senhor está feliz pelo fato de o novo Papa ser polonês?”; “O senhor é vegetariano por motivo de religião ou por motivo de saúde?”. Singer só respondeu a esta última pergunta, legando-nos o que talvez seja a mais perfeita síntese da sua veg-visão de mundo: “Eu estou mais preocupado com a saúde dos animais do que com a minha própria.”

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Último Natal

Saudações literárias veganas,

Quero iniciar a minha tentativa de colaboração com o blogue compartilhando estes oportunos versos para essa época do ano.


Abraços!

Ortegal




O último natal


Chegou o natal dia sem par

E o peru do quintal onde foi parar?

À noite somente uma certeza

A morte aguarda-me à mesa

Não ouço mais seu grugulejo

Abro os olhos e o que vejo?


No prato

Cercado de ornamentos

Em pose indecorosa

De fato

Disfarça o tormento

De uma morte dolorosa


A este pedaço de carne

Dão cuidados e muito zelo

Mas agora é muito tarde

Já viveu todo um flagelo


Os comensais brindam,

Sem remorsos

E para trás ficam

Só os ossos


Pensam que celebram o nascimento

De alguém especial

Mas se alegram com o sofrimento

De um pobre animal


Pais, amigos, tias

Ignoram o horror

Cortam-lhe em fatias

E só sentem o sabor


Troco presentes

Finjo alegria

Não era bem esta

A ceia que eu queria

Para alguns é festa

Para outros, agonia



(suposta autora de Affonso Romano de Sant´Anna)



Versão com fundo musical e imagens no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=TH--KvwxYpE

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

História de um Matadouro

(Daniel Kirjner)

Oito horas da noite, caminho pelas ruas desertas fazendo soar as pancadas de meu salto no chão por muitas léguas. Já não há mais ninguém, pelo menos que eu saiba da existência. Só vejo uma enorme solidão, à frente e atrás. Paro, tiro minha pena e começo a escrever.

Vago meus últimos dias por sobre este planeta, poucas horas me restam de autocontrole. Sinto fome, só isso, nada mais. O alimento cessou de existir a algumas semanas, e os poucos restos de sobrevida já arranquei deste mundo deserto. Só resta a espera, loucura, desespero e, por fim... bem, não sei o que vem depois, se tudo em que acredito vivia neste local. O rebanho era enorme, farto, opulento. Alimentava-me como um rei, muitas e muitas vezes, sem jamais sentir qualquer indisposição. Era conhecido como matadouro, nome que muito me agradava e envaidecia. Grande bosta! Hoje sei que qualquer vaidade é transitória. Sempre me considerei um solitário, queria o mundo sem concorrência, exclusivo para o meu deleite, mas não existe prazer sem luta. O que esgotou o alimento não foi só a morte em massa de animais, mas também seu excesso. Por muito tempo, o banquete foi farto demais. A comida estragou e eu, confiante, voraz e exagerado, estraguei a mim mesmo.

Deixo registrado o ocorrido nas linhas que seguem, para a posteridade, ou talvez para informar alguma forma de existência racional que consiga superar a rudeza deste planeta. A humanidade sempre sacrificou animais para comer. Desde suas formas mais primitivas, a caça sempre foi a principal fonte de energia para o corpo. Mesmo depois da descoberta e desenvolvimento da agricultura isso não mudou. Particularmente, tenho uma teoria sobre esse fato: Homo Sapiens Sapiens fica facilmente entediado e a crueldade – digo por experiência própria – é a forma mais divertida de passar o tempo. De volta ao acontecido, a humanidade evoluiu, criou o shopping center e, não mais que de repente, tinha tantas coisas para fazer que não podia mais caçar. Mas isso não os fez abandonar a carne, pelo contrário, começaram a pagar para que esta fosse produzida em grandes quantidades. Claro que os animais comidos tinham vidas e, consequentemente, doenças. Tecido doente não se come, nem cresce, muito menos vira lucro. Logo os seres humanos passaram a entupir seu rebanho de remédios e quem ficava forte era outra forma de vida desprezível. Primeiro veio a gripe de vaca, depois a do frango e a do porco, mas todas estas foram superadas com menos baixas. O que liquidou tudo não foi um vírus, mas um fungo que se espalhava pelo ar e tinha grande facilidade de se reproduzir em meio à gordura animal armazenada, consumindo-a primeiro e, na falta dela, atacando os órgãos internos de seu hospedeiro.

O destino é mesmo um clichê de ficção científica. Fungos resistentes a antibióticos! Isso sim é muito engraçado. E o mais hilário é que não apareceu um Texano de espingarda para salvar ninguém e se tivesse vindo por aqui eu mesmo teria me banqueteado do sujeito. Mais engraçada ainda é a minha sina. Eu, que a mais de trezentos anos não ponho um pedaço de carne na boca, persisto como último ser da terra. Não posso me gabar de estar vivo, porque não estou, mas o fato de não respirar ou comer e estar podre e atrofiado por dentro me ajudou a continuar vagando por aí. Os fungos são meus companheiros a séculos e já cearam os órgãos que parei de usar. Você deve estar se perguntando que criatura bizarra fui, já que se esta carta esta sendo lida, há tempos devo ter virado pó. Sou um Vampiro. De certa forma, não sou muito diferente dos outros humanos que viveram na terra, aliás, já fui um deles. Ambos pertencemos a uma sociedade cruel, que se alimentou da morte de outras espécies inferiores ao nosso olhar. Caçamos, brigamos, cobiçamos, flertamos e bebemos. As diferenças são apenas duas: eles fodem para ter prazer, nós bebemos sangue; eles matam galinhas, vacas e sardinhas, nós os matamos. Não há muita diferença, afinal, entre matar uma galinha ou um ser humano. O sangue humano é mais gostoso, além do que eles sabem implorar pela vida, coisa sempre muito prazerosa e importante no ritual da caça.

Já sinto o fim se aproximar. A Besta! Um instinto destrutivo incontrolável que existe em todos os seres que estão perecendo pela fome, ela é mais forte ainda nos vampiros, nossa maldição, ante-sala do fim. Despeço-me enquanto ainda tenho o dom do raciocínio, pois para um filho de Malkav a loucura chega mais rápido. Adeus! Quem sabe te vejo no inferno.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma Angustiante Hora do Almoço

Autor: Dennis Zagha Bluwol

(Texto presente no Zine-Livro "Escritos Éticos & Picaréticos")

Versão alterada em 30/03/2010


A tempos venho namorando o crudivorismo[1] e feito algumas experiências de poucos dias ou, no máximo, poucas semanas. Agora estou aqui, olhando para a mesa.
Hora de preparar o almoço. Serei eu crudívoro ou prepararei um arroz cozido? Dúvida angustiante. Parece-me óbvio comer as coisas como vêm, cruas, inteiras, íntegras, resultados de processos de bilhões de anos de adaptações em conformidade com as espécies que as comem. Mas meu arroz integral parece tão saudável e sempre me deixou tão bem… Será que desde o neolítico não nos adaptamos perfeitamente a nos alimentar de cereais cozidos? Mas os crudívoros não devem estar mentindo quando dizem que vivem muito melhor assim.
Parcela dos crudívoros, especialmente os vinculados à chamada alimentação viva, continuam a alimentar-se de cereais e grãos, mas germinados, não cozidos. Outra parcela diz que nossa natureza é frugívora: frutas, folhas, sementes, castanhas. Essa me parece uma dieta (um modo de vida) interessante eticamente e ambientalmente.
Eu me preocupo muito com nosso modelo de mundo, nosso modo de inserção na natureza, nos ecossistemas. Há apenas dez mil anos começamos a domesticar radicalmente a natureza e a plantar cereais e grãos em larga escala (alguns dizem que foi pra fazer cerveja. Será? Faz sentido o uso de álcool para aguentar viver a vida sem sentido que então se impôs e para causar passividade naqueles que não desejariam viver como trabalhadores rurais e não mais caçadores-coletores).
Então, o que comíamos antes? Alguns dizem que éramos frugívoros. Mas, creio eu, certamente nossos parentes neolíticos também comiam carne. E isto eu descartei já como opção.
Cereais e grãos… Alimentos da civilização? Frutos da arrogante e violenta domesticação da natureza? Será possível nos alimentar de cereais e grãos em uma relação harmoniosa com o resto da natureza? Como produzir tanto cereal e grão em uma organização que não dependa da brutal domesticação e eliminação de diversidade? Se não for possível, posso viver como frugívoro? Alguns vivem e dizem que vivem no auge de suas energias e felicidade. Será mesmo que nosso organismo ainda consegue viver assim por muito tempo? Angustiantes dúvidas. E a hora do almoço está passando… Cru ou cozido? Cereais e grãos ou frutas e folhas? Ou frutas, folhas, cereais e grãos, crus e cozidos? Dúvidas. Deveriam colocar nos livros de nutrição como fatores antinutricionais: angustiar-se com o alimento à mesa.
Como pode uma espécie ser tão perdida que não sabe nem mesmo qual seu alimento ideal? Talvez nos caracterizemos por sermos uma espécie sem ideal. Algumas são carnívoras, outras herbívoras, ninguém fica se preocupando com o que seria mais saudável comer na próxima refeição. Mas nós somos perdidos. Talvez seja esta nossa natureza. Já estamos tão perdidos que não possuímos mais uma natureza de fato. Estamos sempre em busca. Todo este desenvolvimento do nosso pensamento abstrato e capacidade de reflexão nos tornou essas coisas, sempre criando, sempre criando, e sempre perdidos, sempre em dúvida. O resto da natureza é que sofre a cada nova genial criação humana. Mas não há como vivermos sem criarmos. Seremos obrigatoriamente contraditórios com nosso próprio ecossistema? E, pior, com todos os ecossistemas terrestres? Angústia...
Como espécie, qual valor tem o fato de termos nos adaptado a comer quase tudo, cru ou cozido? É um ganho da espécie ou um ganho de obrigação de destruição e competição por alimentos que antes pertenciam apenas a outras espécies, quebrando o equilíbrio existente na diversidade? Somos algo como um vírus, nos apropriando de tudo e todos? Pior, vírus conscientes, autointitulados senhores do destino de todos os outros seres, de todos os ambientes terrestres. Ai meu estômago! Agora, além de fome, me ataca a gastrite.À minha volta há mamões e mangas (certo, com agrotóxicos e exploração dos trabalhadores rurais, transporte com combustíveis fósseis e tudo mais). Ao meu lado há também arroz e lentilha prontos para serem cozidos (com os mesmos poréns). Dentro de mim há dor.
Alguns ficariam bêbados para esquecer a angústia. Eu já aprendi que isto só a aumenta. E traz passividade e doença. Fico então olhando para a manga como se fosse um alienígena. Analisando, analisando, pensando. Ai minha capacidade analítica, como dói!
Minha existência tem fome…
[1] Crudívoros são pessoas que se alimentam apenas de alimentos crus.