domingo, 25 de setembro de 2011

“O Planeta dos Macacos”: confluências entre humanidade, racionalidade e opressão

Rafael Bán Jacobsen

Em 1963, o engenheiro e escritor francês Pierre Boulle (Avignon, 20 de fevereiro, 1912 – Paris, 30 de janeiro, 1994) publicou o romance “La Planète des Singes” (“O Planeta dos Macacos”), obra de ficção científica que acabaria sendo mais conhecida do grande público através da sua adaptação cinematográfica de 1968, dirigida por Franklin J. Schaffner e estrelada por Charlton Heston. O livro de Boulle é um exemplo de crítica social por meio da distopia, isto é, trata-se de uma ficção cujo valor representa a antítese da filosofia utópica, descortinando alegoricamente mazelas humanas e sociais tais como a corrupção, o preconceito, a sede por poder, o totalitarismo e o autoritarismo.

Entre tantas possibilidades de leitura para o texto de Boulle, uma das mais ricas e menos debatidas é a crítica à dominação dos humanos sobre os animais não-humanos, especialmente no que diz respeito à polêmica questão da experimentação animal.

Resumidamente, o livro tem a forma de um diário de bordo escrito por um astronauta terráqueo chamado Ulysse Mérou, que, acreditando ser o último ser humano restante no universo, escreveu a sua história na esperança de que alguém a ache. Ele narra sua viagem até os arredores da estrela Betelgeuse, onde ele e seus companheiros de bordo descobrem haver um planeta muito similar à Terra, ao qual dão o nome Soror (“irmã”, em latim). Aterrissando no planeta, descobrem ser possível respirar-lhe o ar, beber-lhe a água e comer da vegetação local. Logo encontram outros seres humanoides no planeta, muito embora estes ajam primitivamente como chimpanzés e mostrem terrível aversão a instrumentos e objetos manufaturados em geral, razão pela qual atacam os astronautas recém-chegados, destruindo-lhes as roupas. De fato, é grande a surpresa dos terráqueos diante da “bestialidade” daqueles seres de aparência tão familiar:

Em algum momento durante a viagem, havíamos discutido nosso eventual encontro com seres vivos, e tínhamos vislumbrado com os olhos da mente criaturas monstruosas, disformes, com aspecto físico muito diferente do nosso, mas sempre imaginávamos, de modo implícito, a presença de uma mente. No planeta Soror, a realidade parecia ser bem o oposto: tínhamos de lidar com habitantes que se assemelhavam a nós em todos os aspectos físicos mas que pareciam completamente desprovidos do poder da razão. Esse era, deveras, o significado da expressão que eu havia achado tão perturbadora em Nova e que agora eu via nos demais: uma falta de reflexão consciente, a ausência de inteligência. (BOULLE: 1966, p. 31)

Uma interrogação que poderia inquietar Ulysse e seus companheiros de viagem frente a tal realidade é se esses seres, tão aparentemente humanos mas tão essencialmente esvaziados de tudo que, no senso comum, caracteriza o “ser humano” (linguagem, raciocínio, consciência), devem “contar como humanos”, ou seja, se esses seres devem, em tese, possuir o mesmo status moral dos homens civilizados que habitam a Terra. Dilema similar é colocado pelo biólogo Richard Dawkins, em seu recente livro “Deus, um delírio”, no trecho em que propõe uma interessante situação hipotética para analisar a “sacralização da vida humana” que é, muitas vezes, tomada como argumento por ativistas antiaborto:

(...) imagine que uma espécie intermediária, o Australopithecus afarensis, por exemplo, tivesse conseguido sobreviver e fosse descoberta numa área remota da África. Essas criaturas “contariam como humanas” ou não? (...) O absolutista (a favor da superioridade da vida humana) precisa responder à pergunta, para aplicar o princípio moral de garantir aos seres humanos um status único e especial, porque eles são humanos. No extremo, eles teriam que criar tribunais, como aqueles da África do Sul no apartheid, para decidir se um indivíduo específico deveria “passar como humano”.

Mesmo que se tente dar uma resposta clara para o Australopithecus, a continuidade gradativa que é característica inescapável da evolução biológica diz-nos que tem de haver algum intermediário que fique suficientemente perto do “limite” a ponto de obscurecer o princípio moral e destruir seu absolutismo. Um jeito melhor de dizer isso é afirmando que não há limites naturais na evolução. A ilusão de um limite é criada pelo fato de que, por acaso, os intermediários evolutivos estão extintos. (...) O fato da evolução derruba de forma devastadora a discriminação moral absolutista. (DAWKINS: 2007, p. 386-387)

Entre tantas descobertas, os astronautas terráqueos não têm muito tempo para indagações e estabelecem-se com os humanos primitivos por alguns dias, na esperança de que possam civilizá-los, e Ulysse apaixona-se por uma deles, a qual passa a chamar de Nova. Porém, certo dia, uma inesperada situação se impõe, um acontecimento que ilustra de maneira ainda mais dramática o latente dilema das nebulosas fronteiras do humano: surge um grupo de caçadores na floresta, consistindo de gorilas, orangotangos e chimpanzés que se vestem como os humanos da Terra e usam armas e máquinas. Os caçadores alvejam vários dos humanos por pura diversão e capturam outros, inclusive o protagonista, o qual, analisando o comportamento dos símios, observa:

Eu havia acompanhado a mudança na sua expressão desde o momento em que foi alertado pelo ruído e registrei vários aspectos surpreendentes: antes de mais nada, a crueldade do caçador perseguindo sua presa e o prazer febril que obtinha desse passatempo; mas, sobretudo, o caráter humano de sua expressão – nos olhos desse animal, havia uma fagulha de entendimento que eu havia em vão buscado nos homens de Soror. (BOULLE: 1966, p. 42)

É digno de nota que, no texto, o “caráter humano” de um habitante de Soror apareça inserido em uma cena de violência, justaposto à perversidade, sinalizando que, talvez, a verdadeira essência do humano não seja pureza, nobreza ou qualquer qualidade elevada do espírito.

Enquanto a maioria dos humanos apreendidos pelos caçadores é vendida para trabalhos manuais, o protagonista e Nova acabam em uma instituição de pesquisadores que fazem experimentos sobre a inteligência humana. É apenas nesse momento que os questionamentos de natureza biológica e moral começam a perpassar a mente de Ulysse:

Homens! De que raça eram então os seres que os macacos haviam matado e capturado? Algum tipo de tribo atrasada? Se era esse o caso, quão cruéis eram os soberanos desse planeta ao tolerar e talvez decretar tais massacres! (BOULLE: 1966, p. 53)

No centro de pesquisas, as habilidades e a capacidade cognitiva de Ulysse chamam a atenção da Dra. Zira, uma chimpanzé que ali trabalha como pesquisadora. Pouco a pouco, Ulysse revela a Zira todo o seu conhecimento e a verdade sobre sua origem. A partir de então, em segredo, Zira passa a ensiná-lo a língua símia e diversas coisas acerca do planeta dos macacos, sua história, sua política, sua ciência.

Em seus diálogos com Ulysse, Zira revela muito de como os macacos enxergam a si próprios, e essa autoimagem, idealizada e divinizada, é perfeitamente análoga à nossa concepção religiosa do “homem concebido à imagem e semelhança de Deus”:

‘O que você acha?’, ela disse. ‘O macaco é, obviamente, a única criatura racional, a única que possui uma mente e também um corpo. Mesmo os mais materialistas dentre os nossos cientistas reconhecem a essência sobrenatural da mente símia. (BOULLE: 1966, p. 83)

Em dado momento, Ulysse conhece o noivo de Zira, chamado Cornélius, um cientista jovem porém muito conceituado. Embora os chimpanzés Zira e Cornélius estejam convencidos de que Ulysse é um ser racional, os orangotangos, que regem a sociedade, acreditam que ele finja entendimento da língua, porque a sua filosofia não permite pensar em humanos inteligentes. Com a ajuda de Cornélius, Ulysse consegue a oportunidade de fazer um discurso em uma conferência anual de biologia, diante de diversos cientistas, jornalistas e autoridades do mundo símio. Essa passagem do romance é especular e, portanto, complementar ao conto “Informação para uma Academia”, do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), que narra a história de Pedro Rubro, um macaco educado que comparece perante os membros de uma academia para contar a história de sua vida, de sua ascensão de fera a algo próximo do homem. Com a figura de um macaco falante, de gravata-borboleta, smoking e com o bloco de notas da palestra em punho, Kafka derruba a autoproclamada fronteira que o homem estabelece entre si e as demais espécies de animais. Ao final de sua narrativa, o macaco Pedro Rubro, já perfeitamente humanizado e educado, reflete sobre a sua transformação e sobre o que ganhou com ela. Sua constatação é pouco alentadora para a espécie homo sapiens. Ao conquistar tudo que julgamos relevante (conforto, reconhecimento, vida social agitada, um relacionamento conjugal), Pedro parece encarar tudo com um grande vazio – a vida humana em nada é mais valiosa do que a sua prévia vida simiesca:

Se com uma vista de olhos examino toda minha evolução e o que foi seu objetivo até agora, nem me lamento dela, nem me dou por satisfeito. Com as mãos nos bolsos da calça, com a garrafa de vinho sobre a mesa, recostado ou sentado a meias na cadeira de balanço, olho pela janela. Se chegam visitas, recebo-as como se deve. Meu empresário está sentado na antecâmara: se toco a campainha, acode e escuta o que tenho a dizer-lhe. De noite quase sempre há função e obtenho êxitos já mal superáveis. E se ao sair dos banquetes, das sociedades científicas ou das gratas reuniões entre amigos, chego à casa a horas avançadas da noite, ali me espera uma pequena e semiamestrada chimpanzé, com quem, à maneira simiesca, passo muito bem. De dia não quero vê-la, pois tem no olhar essa loucura do animal perturbado pelo amestramento; isso unicamente eu o percebo, e não posso suportá-lo. . (KAFKA: s/d, p. 105/106)

Ulysse, em seu discurso, percorre caminho inverso ao de Pedro Rubro, narrando as circunstâncias que o levaram da condição de criatura racional e civilizada a uma bestialidade imposta e da qual, através de seu depoimento, buscava escapar.

Após esse evento, tendo sua racionalidade reconhecida, Ulysse recebe roupas para vestir, é retirado de sua jaula, passando a viver em um quarto no centro de pesquisas e começa a auxiliar os chimpanzés em suas experiências com humanos. É então que Ulysse descobre que os experimentos que os macacos realizam vão muito além dos testes psicológicos de capacidade cognitiva e condicionamento: em Soror, os homens são utilizados em cruéis práticas de vivissecção.

Aquele humano tivera toda uma zona da área occipital removida. Não podia mais distinguir a distância ou a forma dos objetos, uma inabilidade que manifestava através de uma série de gestos desordenados cada vez que uma enfermeira se aproximava dele. Era incapaz de desviar de um sarrafo colocado no seu caminho. (...)

Com meu estômago pesando por essa sucessão de horrores acompanhados pelos comentários de um chimpanzé risonho, eu vi homens parcial ou totalmente paralisados, outros artificialmente privados da visão. (...)

‘Aqui,’ ele disse com ar misterioso, ‘nós fazemos pesquisas mais delicadas. Não é mais o bisturi que entra em ação, é algo bem mais sutil – estimulação elétrica de certos pontos do cérebro. Desenvolvemos alguns experimentos notáveis. Vocês fazem esse tipo de coisa na Terra?’

'Sim, nos macacos!’ eu retruquei em fúria. (BOULLE: 1966, p. 153)

A fúria de Ulysse diante de tais práticas é imediata e pouco racionalizada; porém, o que há por trás desse sentimento nada mais é do que a percepção intuitiva de que aqueles humanos, mesmo privados de linguagem, de racionalidade, de plena cognição, possuem sensibilidade, capacidade de sofrer ou sentir prazer e de valorar tais experiências como boas ou más – elementos esses que condicionam direitos naturais tais como o direito à vida, à liberdade, à integridade física. A fúria de Ulysse é a manifestação primeira de uma aversão moral frente a uma prática antiética.

Pode-se dizer que, vivenciando o reverso da situação que ocorre no planeta Terra, onde macacos são vitimados em experimentos similares, Ulysse é forçado ao mais legítimo exercício ético, ou seja, colocar-se no lugar do outro, analisar a ação em questão e avaliá-la como boa ou má não do ponto de vista daquele que pratica a ação, mas sim da desprivilegiada posição daquele ser que sofre seus efeitos e consequências. Assim, Ulysse reaprende o que jamais poderia ter esquecido desde que encontrara os macacos racionais pela primeira vez, desde que os vira caçando impiedosamente os humanos: o planeta Soror não é um lugar amigável ou sequer seguro para seres humanos, assim como a Terra não é um lugar em que os animais não-humanos possam viver suas vidas com plenitude e liberdade. Seja em que lugar do cosmos for, o que restaria à racionalidade senão colocar a si mesma em um trono e, do alto dele, praticar dominação sobre todo o resto?

A partir daí, a trama se encaminha para seu desfecho. A tranquilidade e a segurança conquistadas pelo protagonista depois de seu discurso na conferência ficam ameaçadas quando as autoridades símias descobrem que a humana primitiva Nova, ainda confinada no centro de pesquisas, está esperando um filho de Ulysse, o qual, cogitam, sendo o início de uma potencial linhagem de humanos racionais, pode vir a constituir um perigo ao futuro da sociedade símia e seu domínio sobre os homens.

Sem revelar detalhes do epílogo, cabe ressaltar que, até o final, o romance de Boulle consegue surpreender e entreter ao mesmo tempo em que suscita questionamentos filosóficos: de onde vem a resistência que nós, indivíduos da espécie homo sapiens, temos em aceitar que somos apenas animais e que tantos outros animais são tão moralmente relevantes quanto nós mesmos? Negar a existência dessa dimensão que se pode denominar “racionalidade”, “alma” ou “psiquismo” nos animais não seria uma forma de exercício de poder e mecanismo de dominação, assim como já foi perpetrado por nós, humanos, contra outros grupos humanos? Quão íntima é a relação entre “humanidade”, “racionalidade” e “opressão”?

Referências:

BOULLE, Pierre. Monkey Planet. Harmondsworth: Penguin Books, 1966.

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Cia. Das Letras, 2007.

KAFKA, Franz. A Colônia Penal. São Paulo: Livraria Exposição do Livro, s/d.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vozes Vegetarianas na Literatura: Coetzee

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2003, o sul-africano John Maxwell Coetzee faz eco à ideia defendida por Bashevis Singer, outro laureado, de que os homens escravizam, torturam e exterminam em massa os animais, assim como os nazistas fizeram com os judeus. Tal concepção surge em diversos trabalhos seus. O exemplo mais óbvio é o livro “A Vida dos Animais”.

Convidado a proferir uma palestra na Universidade de Princeton, o escritor surpreendeu sua audiência. Em lugar de um ensaio teórico, ele leu esta inquietante narrativa sobre a relação entre os homens e os animais. O romance é protagonizado por uma escritora, Elizabeth Costello, que, assim como Coetzee, se prepara para um ciclo de conferências e discorre sobre as questões filosóficas e éticas que envolvem o nosso trato com os animais. Num bem articulado jogo entre ficção e realidade, teoria e prática cotidiana, Coetzee nos conduz por questionamentos sobre a vida e a razão. A prosa inflamada de Elizabeth Costello, vegetariana radical, faz uma polêmica analogia entre o abate do gado bovino e o holocausto nazista. As resistências às suas idéias começam em ambiente familiar. Hospedada na casa do filho, ela tem que contrapor suas convicções ao dia-a-dia da família.

Talvez a porção final do texto, em que Elizabeth Costello faz um doloroso desabafo ao seu filho, seja a mais primorosa síntese que dele próprio se possa fazer:

Aparentemente, eu me movimento perfeitamente bem no meio das pessoas, tenho relações perfeitamente normais com elas. É possível, me pergunto, que todas estejam participando de um crime de proporções inimagináveis? Estou fantasiando isso tudo? Devo estar louca! No entanto, todo dia vejo provas disso. As próprias pessoas de quem desconfio produzem provas, exibem as provas para mim, me oferecem. Cadáveres. Fragmentos de corpos que compraram com dinheiro. É como se eu fosse visitar amigos, fizesse algum comentário gentil sobre um abajur da sala, e eles respondessem: 'Bonito, não é? Feito de pele judaico-polonesa, é o que há de melhor, pele de jovens virgens judaico-polonesas.' E aí eu vou ao banheiro, e a embalagem do sabonete diz assim: 'Treblinka – 100% estearato humano'. Será que estou sonhando, pergunto a mim mesma? Que casa é esta? E não estou sonhando, não. (...) Calma, digo para mim mesma, você está fazendo tempestade em um copo d´água. Assim é a vida. Todo mundo se acostuma com isso, por que você não? Por que você não?


Vegetariano convicto, Coetzee já afirmou:


Sim, sou vegetariano. Acho bastante repulsiva a ideia de rechear minha garganta com fragmentos de cadáveres e me surpreende ver quanta gente o faz todos os dias.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um Ano Bom

Pense no sujeito mais abjeto com que você já cruzou. Ele é egoísta, maldoso, tenta passar a perna em todos, é invejoso, intriguento, mesquinho, sem escrúpulos, só visa se dar bem acima de qualquer coisa. Pensou?
Agora pense no seu oposto. Alguém que contém em si toda a simplicidade, a despretensão, quer tão somente viver sua vida sem prejudicar ninguém, sem desejar o mal, sem o praticar. Alguém inteligente, mas que só utiliza sua inteligência para sobreviver em um mundo injusto.
O primeiro, sem dúvida, pertence à espécie humana e, embora não simbolize a humanidade toda, assume predicados nada difíceis de se encontrar nela. O segundo é um porco e "encarna", nessa descrição, os principais predicados de sua espécie.
Há mais diferenças entre eles. O primeiro, daqui a algumas horas, na festa em que comemora mais um ano de vitórias e em que deseja mais sucesso para si no ano que inicia, encomendará o cadáver do segundo e o comerá, crendo em superstições vãs que só a sua espécie é capaz de criar, apesar de se vangloriar do uso da razão.

É meio improvável, mas não custa desejar:
que o ano novo seja bom apenas para os bons

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema para a noite de natal

Escrevi um poema para o natal, e pensei em compartilhar por aqui, como contribuição para esse espírito de congraçamento e respeito que emana dessa época, e também para as reflexões que sempre são feitas nos momentos de virada de ano, quando a Terra está no mesmo lugar em que esteve há pouco menos de um ano. Sem mais delongas.


Poema para a noite de natal

Olharei atentamente o céu da noite de natal

Buscarei no escuro vasto o rastro da estrela guia

Ansiarei por percorrer seu percurso celestial

Se de fato ela brilhasse, por onde me levaria?


Transitou oculta em nuvens no Setor Comercial

Entre errantes ao relento na noite erradia

Ofuscou ante os letreiros do Conjunto Nacional

Que iluminam o coração contraditório de Brasília.


Desviou do abatedouro da zona rural

Com rubor ao ver o sangue que jorra da estrebaria

Congelou presa ao pinheiro plástico artificial

Se apagou quando notou a manjedoura estar vazia.



Leonardo Ortegal

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Vozes Vegetarianas na Literatura: Brian Aldiss

Brian Wilson Aldiss (1925 -) é um escritor inglês de ficção científica. Um de seus livros de contos mais conhecidos é “Superbrinquedos duram o verão todo”. Neste volume, encontramos os dois contos que serviram de base para "A.I. - Inteligência Artificial", o famoso filme de ficção científica de Steven Spielberg lançado em 2001, a partir de um projeto de Stanley Kubrick, sobre a possibilidade da criação de máquinas com sentimentos. Nesse mesmo volume de contos, podemos ler um interessante texto intitulado “Carne”. Nele, é apresentada a visão apocalíptica de uma realidade futura em que a exploração dos animais e a criação de rebanhos cada vez maiores acabaram por arruinar o equilíbrio ambiental do planeta, culminando com a proliferação de doenças entre os próprios animais, o que ocasionou a extinção de todo rebanho bovino e 99% do rebanho ovino.

O impacto ambiental da criação industrial de animais para consumo humano é fato. E esse fato é literariamente descrito nas seguintes passagens do texto;

(...) quarenta por cento da terra agriculturável do país estava sendo usada no plantio de forragem para os animais que eram abatidos e exportados. Uma outra porção das terras era empregada no plantio de soja – exportada para alimentar o gado do Primeiro Mundo. (...)

A imagem anódina que os Carnívoros apresentavam ao mundo mostrava o gado pastando placidamente em verdes campinas. Isso já se tornara uma fantasia muito antes do fim. A verdade é que aquelas criaturas sensíveis – não apenas o gado bovino, como também o ovino, os porcos e os galináceos – já não eram mais animais e sim meras unidades de produção de carne, destinadas a percorrer o trajeto até os estômagos glutões do Ocidente da maneira mais rápida e barata possível.

Para manter essas unidades produtoras de carne saudáveis em sua curta existência, elas eram abarrotadas de penicilina. De tal forma que os antibióticos foram ficando cada vez mais ineficazes em sua tarefa de curar uma população cada vez mais doente. População cujo hábito de se empanturrar de carne acelerou o ritmo das doenças.

A última linha do conto, diante de tal quadro, nem tão distante de nossa atual realidade, infelizmente não pode ser taxada de panfletária ou exagerada:

Carne Faz Mal a Você. Ela Fez Mal ao Planeta Todo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Lenço Vermelho

Olá leitores do Resistência.

No dia de hoje farei um post diferente. Estive em Porto Alegre para o Congresso da SVB. Chegando lá, deparei-me com a semana farroupilha, um desfile público de homofibia e especismo que me colocou sensibilizado de tal forma que não conseguia tirar algumas imagens da cabeça. Por isso, compus uma música sobre esta experiência q hoje posto aqui no Blog. Perdoem a falta de qualidade do vídeo, pois esta experiência é totalmente caseira.

Espero que gostem.
Forte Abraço!

Lenço Vermelho
(Daniel Kirjner)

Ah, esta herança farroupilha
reza vísceras que escorrem pelas mãos.
Há tempos esta guerra foi perdida
mas os corpos ainda jazem pelo chão.

Sonhos desfilam fantasiados
celebrando uma nação que não nasceu.
Na Pólis defensora do Estado,
rapina de seus farrapos prometeus.

Eu vi um galo fantasiado,
preso com arames pelo calcanhar.
Rasgavam em tortura sua carne
para ele ser modelo de fotagrafar.

Uma ovelha estava tão machucada
e sonhava qualquer água para beber.
Buscando um resquício de bondade
sobre pasto que teimava em não nascer

Ah, triste senhor, fiel combatente farrapo.
Não vês que o lenço é da cor do sangue de teus animais?




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O velho e um porco

Estréio hoje, propositalmente no aniversário de morte do grande Barry Horne, como um lembrete a todos nós de que sempre podemos fazer mais, mesmo encarcerados, mesmo quando tudo e todos parecem estar contra nós. Um cumprimento vegano a todos meus colegas de blog e a todos os abolicionistas ativistas pelo mundo afora. Força e coragem, companheiros de luta! Segue um pequeno conto nessa sexta-feira tão significativa. Espero que gostem. Beijos vegans ;*


A cena se repetia todas as sextas. Era como se tivessem esquecido ligado o botão de repetir. Nada mudava, nada se acrescentava nem retirava. Eram sempre o velho e um porco qualquer; o primeiro vivo e o segundo morto, sempre.

O porco gratinado e com uma maçã vermelho-sangue na boca.

O velho... Bem, o velho, velho; a pela enrugada e frágil como a imitar papel de seda molhado.

O velho era extremamente pálido e o porco extremamente mulato, alteravam a coloração cadáver / vivo, o leitor deve ter notado.

A louça de porcelana fina e talheres de prata davam a impressão de que o velho esperava alguém. Mas era só isso mesmo, impressão. O único que lhe fazia companhia era o porco, era também o único com quem o velho conversava, embora nunca respondesse, é obvio. Não que o velho realmente se importasse...

- Deverias orgulhar-se de estar à minha mesa! Que cara mais inexpressiva!

A rotina, que terminava com o velho e o porco à mesa, começava sexta de manhã, quando o velho saia de casa para ir ao açougue. Vestia terno e sapatos lustrados, ignorando a falta de classe de usá-los em uma estrada de terra como aquela.

O açougueiro não perguntava, não cumprimentava. Conhecia o velho de longa data. Looooonga data, desde a época em que era menos velho. O valor era sempre o mesmo, a compra sempre muda e monótona. Dinheiro. Pacote com o porco. Troco. Nota fiscal. Sino da porta anunciando a saída do velho.

Devo parar de narrar a irritante rotina das sextas feiras do velho, pois, se meus recursos literários não falham, esta é uma narrativa muito chata e o leitor já deve estar entediado.

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, eu digo que água mole -se for esperta- em pedra dura tanto bate até que muda o curso e dá a volta na pedra.

Esta história muda de curso numa sexta-feira, que não era 13 nem de lua cheia, acredito, pois foi um dia de bastante sorte para o velho e para um porco. Vamos aos fatos.

Terno. Sapatos lustrados. Estrada de terra. Açougue. Tudo igual até aí.

- O homem não pôde vir. Está cumprindo pena de um dia na cadeia. Semana que vem está de volta.

O velho, se não fosse pela artrite, teria pulado para trás com o susto de ouvir a voz do açougueiro. Não era mudo, afinal.

- Que homem? – perguntou depois de um tempo

- O algoz, carrasco, abatedor, encapuzado... Sei lá como o chamavam na sua época.

Parou para pensar, o velho. Julgava-se esperto mas não via motivo para aquela quebra de silêncio por parte do açougueiro.

- E então?

- Então, o quê? O homem não veio, não tem porco!

Se fosse possível, o velho teria ficado mais pálido que já era:

- O curral é nos fundos que bem sei. Mate um bicho, pago o dobro se for preciso.

- Eu não! Não, senhor! Quem mata é o homem. Eu só fatio e vendo. Não me sujo de sangue nem pelo dobro nem pelo triplo.

- Cinco vezes mais, que seja.

O açougueiro considerou a proposta. O velho esperou.

- Por cinco vezes, leva o bicho vivo. Mas matar, eu que não mato.

Irritado, mas sem alternativas, o velho acabou concordando em pagar cinco vezes o preço habitual por um porco vivo. Arrumaram um sisal tosco e improvisaram uma coleira. O açougueiro demorou um pouco para conseguir agarrar um dos rabinhos cor-de-rosa que corriam fazendo o maior estardalhaço. O velho, impaciente, pagou e saiu segurando o sisal com as duas mãos, o porco não passava dos 30 centímetros de altura, mas era um bicho forte e não se brinca com o jantar, muito menos quando ele pode derrubá-lo no chão.

O porco virou as orelhas ao ouvir o sino da porta, e depois cheirou cada grão da estrada de terra. A curiosidade do bicho estava atrasando o velho e ele não gostava disso. Considerou matá-lo ali mesmo, assim não teria sangue para limpar e nem porco para aturar. Porém, tomada a decisão, notou que não tinha um facão e continuou andando e xingando, andando e xingando.

A viagem pareceu durar mais, culpa do bicho, o velho sabia. Amarrou-o na varanda de frente e foi para a cozinha buscar um facão, o maior que encontrasse. Custou achar. Teve de afiá-lo para facilitar o trabalho.

O porco não estava lá, na varanda. O velho amaldiçoou-se por não ter feito mais forte o nó. O passado ao passado, decidiu, e foi procurar o porco.

Voltou quase toda a estrada de terra. E depois foi na direção oposta. Por fim, sem sucesso, decidiu que um porco não valia tamanho esforço e a rotina que se quebrasse uma vez, oras, escolha é que não tinha.

Em casa, decidiu descansar os pés para agüentar uma nova caminhada pela manhã. Queixar-se-ia na prefeitura a pouca eficiência do açougue. Ah... se ia!

Tirou o terno, os sapatos lustrados e foi até o quarto.

Quase enfartou. Por um momento, imaginou que realmente tinha enfartado, estaria morto, e tudo faria, pois, sentido. Era o inferno, só podia ser. Bem ali, em cima de seu edredom de marca, de seu colchão de marca, estava o porco, e dormia.

- Bicho estúpido! – até cuspiu saliva de tão bravo, o velho

O porco deu um salto que o fez fincar as unhas no edredom. O velho podia sentir seu fedor mesmo àquela distância. Imaginou se seria possível enforcá-lo, pois merecia morte mais lenta que um simples facão no pescoço.

- Porcaria de animal nojento! Deverias orgulhar-se de estar à minha mesa!

E, como se fosse mágica, o “um porco qualquer” pela primeira vez respondeu:

- Róin-róinc!

É, o inferno... era mesmo o inferno. O velho desejou não ter comido tanta gordura em vida, assim não teria enfartado e não estaria ali, com um porco insolente respondendo-lhe os insultos.

- Ainda bem que ainda tens o sisal no pescoço! Será mais fácil pendurá-lo na...

- Róin-róin! Roinc!

O velho respirou fundo e esticou o braço para alcançar o bicho, ignorando o fato de ter sido interrompido por um porco. O porco empurrou as mãos dele com o focinho gelado e sentou-se na cama, bufando irritado.

Ora, pois, quem haveria de acreditar? Estava sendo desafiado por um jantar! Um jantar e nada mais do que isso!

O velho já rangia os dentes preparando-se para uma nova investida quando o porco pulou da cama e saiu correndo. Correu até um canto do quarto e grunhiu virado para o velho perplexo. A cabeça mexendo de cima para baixo como se propusesse um duelo.

Antes que o velho pudesse alcançá-lo, já disparava novamente. O porco correu entre as pernas dele, num oito bem feito e, num pulo, parou sentado na cama de novo.

Então o velho compreendeu. Era uma brincadeira! O bicho estúpido não passava de um filhote tonto que queria brincar. Talvez não tivesse enfartado, no fim das contas, era apenas muito azarado.

Enquanto pensava o que faria com “aquilo”, cometeu o erro mais grave possível, aquele que todo abatedor considera regra número um: nunca olhe nos olhos!

O velho olhou. Olhou e viu.

Lá estavam elas, duas azeitonas brilhantes que piscavam para ele. Eram tão expressivas... tão vivas... tão ingênuas... tão... tão inocentes.

Droga, pensou.

Aproximou-se mais devagar. O porco não se mexeu. Cada passo que dava o velho era uma nova conquista. Mas o porco não parecia mais querer brincar. O velho finalmente estava perto suficiente.

Um estalo forte fez-se ouvir.

Era o tapa que o velho dava naquela bunda rosa e suja de barro do próprio jantar.

- Ande, bicho estúpido! Já lhe tirei o sisal e abri-lhe a porta! Foge logo, que a sorte lhe sorriu!

Bateu mais uma vez, e o porco só se mexeu o suficiente para retomar o equilíbrio.

- Que mais espera que eu faça?! Comida não tenho que tu eras meu jantar!

- Róin-róinc!

O porco novamente empurrou a mão do velho, dessa vez foi como se implorasse para não apanhar mais. Droga de bicho estúpido.

Bateu mais uma vez. A própria mão latejou de dor. O porco não se mexeu.

- Fique aí então. Azar o seu!

O velho deu de ombros e decidiu jantar a maçã vermelho sangue que teria usado para enfeitar o porco. Depois trataria de expulsar o bicho da casa.

Lavou a maçã, secou-a, preparou a louça e os talheres. Quando voltou à mesa derrubou a garrafa de vinho que levava. Sentiu o sangue subir-lhe à cabeça e o queixo cair. Sentado em sua cadeira, da sua sala-de-jantar, da sua casa, estava o porco estúpido!

Balançou a cabeça, fatiou a maçã em dois, sentou-se em outra cadeira e ceou na agradável companhia do porco... vivo.

Descobriu mais tarde que tratava-se de uma porca, fêmea. Deu-lhe um nome. Banhou-a, enfeitou-a com um laço no pescoço, comprou um travesseiro cor-de-rosa sob medida.

E as coisas continuaram a ser como sempre...

Ou quase como sempre. Eram agora, todos os dias, o velho e um porco, o primeiro vivo e a segunda também. Aliás, o primeiro mais vivo do que nunca, pois, se prestar atenção, o leitor há de notar um leve e discreto sorriso em meio àquela face de papel de seda molhado. Quem dera aos porcos terem ao menos uma chance de responder os comentários numa mesa de jantar. Quem dera aos porcos terem a chance de fazer-se ver aquelas azeitonas brilhantes e inocentes.

Quem dera também a todos os velhos do mundo ter a chance de cear em companhia do próprio jantar... dessa vez, vivo e agradecido... ou viva e agradecida, para fazer jus também às fêmeas.

“Talvez realmente tenha enfartado...”, concluiu finalmente o velho, “...mas esqueceram de mostrar-me o caminho ao inferno. Esse é sem dúvida o paraíso."

- Não concorda, minha cara?

- Róinc-róinc! – e a porca abanou o rabicó rosado, contente e viva, como um filhote de porco deve ser