quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma Angustiante Hora do Almoço

Autor: Dennis Zagha Bluwol

(Texto presente no Zine-Livro "Escritos Éticos & Picaréticos")

Versão alterada em 30/03/2010


A tempos venho namorando o crudivorismo[1] e feito algumas experiências de poucos dias ou, no máximo, poucas semanas. Agora estou aqui, olhando para a mesa.
Hora de preparar o almoço. Serei eu crudívoro ou prepararei um arroz cozido? Dúvida angustiante. Parece-me óbvio comer as coisas como vêm, cruas, inteiras, íntegras, resultados de processos de bilhões de anos de adaptações em conformidade com as espécies que as comem. Mas meu arroz integral parece tão saudável e sempre me deixou tão bem… Será que desde o neolítico não nos adaptamos perfeitamente a nos alimentar de cereais cozidos? Mas os crudívoros não devem estar mentindo quando dizem que vivem muito melhor assim.
Parcela dos crudívoros, especialmente os vinculados à chamada alimentação viva, continuam a alimentar-se de cereais e grãos, mas germinados, não cozidos. Outra parcela diz que nossa natureza é frugívora: frutas, folhas, sementes, castanhas. Essa me parece uma dieta (um modo de vida) interessante eticamente e ambientalmente.
Eu me preocupo muito com nosso modelo de mundo, nosso modo de inserção na natureza, nos ecossistemas. Há apenas dez mil anos começamos a domesticar radicalmente a natureza e a plantar cereais e grãos em larga escala (alguns dizem que foi pra fazer cerveja. Será? Faz sentido o uso de álcool para aguentar viver a vida sem sentido que então se impôs e para causar passividade naqueles que não desejariam viver como trabalhadores rurais e não mais caçadores-coletores).
Então, o que comíamos antes? Alguns dizem que éramos frugívoros. Mas, creio eu, certamente nossos parentes neolíticos também comiam carne. E isto eu descartei já como opção.
Cereais e grãos… Alimentos da civilização? Frutos da arrogante e violenta domesticação da natureza? Será possível nos alimentar de cereais e grãos em uma relação harmoniosa com o resto da natureza? Como produzir tanto cereal e grão em uma organização que não dependa da brutal domesticação e eliminação de diversidade? Se não for possível, posso viver como frugívoro? Alguns vivem e dizem que vivem no auge de suas energias e felicidade. Será mesmo que nosso organismo ainda consegue viver assim por muito tempo? Angustiantes dúvidas. E a hora do almoço está passando… Cru ou cozido? Cereais e grãos ou frutas e folhas? Ou frutas, folhas, cereais e grãos, crus e cozidos? Dúvidas. Deveriam colocar nos livros de nutrição como fatores antinutricionais: angustiar-se com o alimento à mesa.
Como pode uma espécie ser tão perdida que não sabe nem mesmo qual seu alimento ideal? Talvez nos caracterizemos por sermos uma espécie sem ideal. Algumas são carnívoras, outras herbívoras, ninguém fica se preocupando com o que seria mais saudável comer na próxima refeição. Mas nós somos perdidos. Talvez seja esta nossa natureza. Já estamos tão perdidos que não possuímos mais uma natureza de fato. Estamos sempre em busca. Todo este desenvolvimento do nosso pensamento abstrato e capacidade de reflexão nos tornou essas coisas, sempre criando, sempre criando, e sempre perdidos, sempre em dúvida. O resto da natureza é que sofre a cada nova genial criação humana. Mas não há como vivermos sem criarmos. Seremos obrigatoriamente contraditórios com nosso próprio ecossistema? E, pior, com todos os ecossistemas terrestres? Angústia...
Como espécie, qual valor tem o fato de termos nos adaptado a comer quase tudo, cru ou cozido? É um ganho da espécie ou um ganho de obrigação de destruição e competição por alimentos que antes pertenciam apenas a outras espécies, quebrando o equilíbrio existente na diversidade? Somos algo como um vírus, nos apropriando de tudo e todos? Pior, vírus conscientes, autointitulados senhores do destino de todos os outros seres, de todos os ambientes terrestres. Ai meu estômago! Agora, além de fome, me ataca a gastrite.À minha volta há mamões e mangas (certo, com agrotóxicos e exploração dos trabalhadores rurais, transporte com combustíveis fósseis e tudo mais). Ao meu lado há também arroz e lentilha prontos para serem cozidos (com os mesmos poréns). Dentro de mim há dor.
Alguns ficariam bêbados para esquecer a angústia. Eu já aprendi que isto só a aumenta. E traz passividade e doença. Fico então olhando para a manga como se fosse um alienígena. Analisando, analisando, pensando. Ai minha capacidade analítica, como dói!
Minha existência tem fome…
[1] Crudívoros são pessoas que se alimentam apenas de alimentos crus.

3 comentários:

Andréa N. disse...

A fome eh boa, tanto de alimento quanto de clareza e informacao. :) Mas, contanto que ambas sejam saciadas, neh. Senao, vira desespero.

ortegal disse...

Caralh* Denis!!
Hahahaha!!

Prepare uma refeição que seja vegana! E que tenha pelo menos 30% de cru.

Com isso você amortece uma parte das angústias e fica com a certeza de que pelo menos não está comendo nada que provenha de sofrimento animal (não humano).

Faça apenas isso e seja feliz!

Coma um monte de comida gostosa, deixe as dúvidas capciosas de lado e parta para ações em prol daquilo que você tem certeza que é bom!

Faça 'apenas' isso e seja feliz!

Daniel Kirjner disse...

Cara...é foda sair da matrix.....