quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema para a noite de natal

Escrevi um poema para o natal, e pensei em compartilhar por aqui, como contribuição para esse espírito de congraçamento e respeito que emana dessa época, e também para as reflexões que sempre são feitas nos momentos de virada de ano, quando a Terra está no mesmo lugar em que esteve há pouco menos de um ano. Sem mais delongas.


Poema para a noite de natal

Olharei atentamente o céu da noite de natal

Buscarei no escuro vasto o rastro da estrela guia

Ansiarei por percorrer seu percurso celestial

Se de fato ela brilhasse, por onde me levaria?


Transitou oculta em nuvens no Setor Comercial

Entre errantes ao relento na noite erradia

Ofuscou ante os letreiros do Conjunto Nacional

Que iluminam o coração contraditório de Brasília.


Desviou do abatedouro da zona rural

Com rubor ao ver o sangue que jorra da estrebaria

Congelou presa ao pinheiro plástico artificial

Se apagou quando notou a manjedoura estar vazia.



Leonardo Ortegal

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Vozes Vegetarianas na Literatura: Brian Aldiss

Brian Wilson Aldiss (1925 -) é um escritor inglês de ficção científica. Um de seus livros de contos mais conhecidos é “Superbrinquedos duram o verão todo”. Neste volume, encontramos os dois contos que serviram de base para "A.I. - Inteligência Artificial", o famoso filme de ficção científica de Steven Spielberg lançado em 2001, a partir de um projeto de Stanley Kubrick, sobre a possibilidade da criação de máquinas com sentimentos. Nesse mesmo volume de contos, podemos ler um interessante texto intitulado “Carne”. Nele, é apresentada a visão apocalíptica de uma realidade futura em que a exploração dos animais e a criação de rebanhos cada vez maiores acabaram por arruinar o equilíbrio ambiental do planeta, culminando com a proliferação de doenças entre os próprios animais, o que ocasionou a extinção de todo rebanho bovino e 99% do rebanho ovino.

O impacto ambiental da criação industrial de animais para consumo humano é fato. E esse fato é literariamente descrito nas seguintes passagens do texto;

(...) quarenta por cento da terra agriculturável do país estava sendo usada no plantio de forragem para os animais que eram abatidos e exportados. Uma outra porção das terras era empregada no plantio de soja – exportada para alimentar o gado do Primeiro Mundo. (...)

A imagem anódina que os Carnívoros apresentavam ao mundo mostrava o gado pastando placidamente em verdes campinas. Isso já se tornara uma fantasia muito antes do fim. A verdade é que aquelas criaturas sensíveis – não apenas o gado bovino, como também o ovino, os porcos e os galináceos – já não eram mais animais e sim meras unidades de produção de carne, destinadas a percorrer o trajeto até os estômagos glutões do Ocidente da maneira mais rápida e barata possível.

Para manter essas unidades produtoras de carne saudáveis em sua curta existência, elas eram abarrotadas de penicilina. De tal forma que os antibióticos foram ficando cada vez mais ineficazes em sua tarefa de curar uma população cada vez mais doente. População cujo hábito de se empanturrar de carne acelerou o ritmo das doenças.

A última linha do conto, diante de tal quadro, nem tão distante de nossa atual realidade, infelizmente não pode ser taxada de panfletária ou exagerada:

Carne Faz Mal a Você. Ela Fez Mal ao Planeta Todo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Lenço Vermelho

Olá leitores do Resistência.

No dia de hoje farei um post diferente. Estive em Porto Alegre para o Congresso da SVB. Chegando lá, deparei-me com a semana farroupilha, um desfile público de homofibia e especismo que me colocou sensibilizado de tal forma que não conseguia tirar algumas imagens da cabeça. Por isso, compus uma música sobre esta experiência q hoje posto aqui no Blog. Perdoem a falta de qualidade do vídeo, pois esta experiência é totalmente caseira.

Espero que gostem.
Forte Abraço!

Lenço Vermelho
(Daniel Kirjner)

Ah, esta herança farroupilha
reza vísceras que escorrem pelas mãos.
Há tempos esta guerra foi perdida
mas os corpos ainda jazem pelo chão.

Sonhos desfilam fantasiados
celebrando uma nação que não nasceu.
Na Pólis defensora do Estado,
rapina de seus farrapos prometeus.

Eu vi um galo fantasiado,
preso com arames pelo calcanhar.
Rasgavam em tortura sua carne
para ele ser modelo de fotagrafar.

Uma ovelha estava tão machucada
e sonhava qualquer água para beber.
Buscando um resquício de bondade
sobre pasto que teimava em não nascer

Ah, triste senhor, fiel combatente farrapo.
Não vês que o lenço é da cor do sangue de teus animais?




video

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O velho e um porco

Estréio hoje, propositalmente no aniversário de morte do grande Barry Horne, como um lembrete a todos nós de que sempre podemos fazer mais, mesmo encarcerados, mesmo quando tudo e todos parecem estar contra nós. Um cumprimento vegano a todos meus colegas de blog e a todos os abolicionistas ativistas pelo mundo afora. Força e coragem, companheiros de luta! Segue um pequeno conto nessa sexta-feira tão significativa. Espero que gostem. Beijos vegans ;*


A cena se repetia todas as sextas. Era como se tivessem esquecido ligado o botão de repetir. Nada mudava, nada se acrescentava nem retirava. Eram sempre o velho e um porco qualquer; o primeiro vivo e o segundo morto, sempre.

O porco gratinado e com uma maçã vermelho-sangue na boca.

O velho... Bem, o velho, velho; a pela enrugada e frágil como a imitar papel de seda molhado.

O velho era extremamente pálido e o porco extremamente mulato, alteravam a coloração cadáver / vivo, o leitor deve ter notado.

A louça de porcelana fina e talheres de prata davam a impressão de que o velho esperava alguém. Mas era só isso mesmo, impressão. O único que lhe fazia companhia era o porco, era também o único com quem o velho conversava, embora nunca respondesse, é obvio. Não que o velho realmente se importasse...

- Deverias orgulhar-se de estar à minha mesa! Que cara mais inexpressiva!

A rotina, que terminava com o velho e o porco à mesa, começava sexta de manhã, quando o velho saia de casa para ir ao açougue. Vestia terno e sapatos lustrados, ignorando a falta de classe de usá-los em uma estrada de terra como aquela.

O açougueiro não perguntava, não cumprimentava. Conhecia o velho de longa data. Looooonga data, desde a época em que era menos velho. O valor era sempre o mesmo, a compra sempre muda e monótona. Dinheiro. Pacote com o porco. Troco. Nota fiscal. Sino da porta anunciando a saída do velho.

Devo parar de narrar a irritante rotina das sextas feiras do velho, pois, se meus recursos literários não falham, esta é uma narrativa muito chata e o leitor já deve estar entediado.

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, eu digo que água mole -se for esperta- em pedra dura tanto bate até que muda o curso e dá a volta na pedra.

Esta história muda de curso numa sexta-feira, que não era 13 nem de lua cheia, acredito, pois foi um dia de bastante sorte para o velho e para um porco. Vamos aos fatos.

Terno. Sapatos lustrados. Estrada de terra. Açougue. Tudo igual até aí.

- O homem não pôde vir. Está cumprindo pena de um dia na cadeia. Semana que vem está de volta.

O velho, se não fosse pela artrite, teria pulado para trás com o susto de ouvir a voz do açougueiro. Não era mudo, afinal.

- Que homem? – perguntou depois de um tempo

- O algoz, carrasco, abatedor, encapuzado... Sei lá como o chamavam na sua época.

Parou para pensar, o velho. Julgava-se esperto mas não via motivo para aquela quebra de silêncio por parte do açougueiro.

- E então?

- Então, o quê? O homem não veio, não tem porco!

Se fosse possível, o velho teria ficado mais pálido que já era:

- O curral é nos fundos que bem sei. Mate um bicho, pago o dobro se for preciso.

- Eu não! Não, senhor! Quem mata é o homem. Eu só fatio e vendo. Não me sujo de sangue nem pelo dobro nem pelo triplo.

- Cinco vezes mais, que seja.

O açougueiro considerou a proposta. O velho esperou.

- Por cinco vezes, leva o bicho vivo. Mas matar, eu que não mato.

Irritado, mas sem alternativas, o velho acabou concordando em pagar cinco vezes o preço habitual por um porco vivo. Arrumaram um sisal tosco e improvisaram uma coleira. O açougueiro demorou um pouco para conseguir agarrar um dos rabinhos cor-de-rosa que corriam fazendo o maior estardalhaço. O velho, impaciente, pagou e saiu segurando o sisal com as duas mãos, o porco não passava dos 30 centímetros de altura, mas era um bicho forte e não se brinca com o jantar, muito menos quando ele pode derrubá-lo no chão.

O porco virou as orelhas ao ouvir o sino da porta, e depois cheirou cada grão da estrada de terra. A curiosidade do bicho estava atrasando o velho e ele não gostava disso. Considerou matá-lo ali mesmo, assim não teria sangue para limpar e nem porco para aturar. Porém, tomada a decisão, notou que não tinha um facão e continuou andando e xingando, andando e xingando.

A viagem pareceu durar mais, culpa do bicho, o velho sabia. Amarrou-o na varanda de frente e foi para a cozinha buscar um facão, o maior que encontrasse. Custou achar. Teve de afiá-lo para facilitar o trabalho.

O porco não estava lá, na varanda. O velho amaldiçoou-se por não ter feito mais forte o nó. O passado ao passado, decidiu, e foi procurar o porco.

Voltou quase toda a estrada de terra. E depois foi na direção oposta. Por fim, sem sucesso, decidiu que um porco não valia tamanho esforço e a rotina que se quebrasse uma vez, oras, escolha é que não tinha.

Em casa, decidiu descansar os pés para agüentar uma nova caminhada pela manhã. Queixar-se-ia na prefeitura a pouca eficiência do açougue. Ah... se ia!

Tirou o terno, os sapatos lustrados e foi até o quarto.

Quase enfartou. Por um momento, imaginou que realmente tinha enfartado, estaria morto, e tudo faria, pois, sentido. Era o inferno, só podia ser. Bem ali, em cima de seu edredom de marca, de seu colchão de marca, estava o porco, e dormia.

- Bicho estúpido! – até cuspiu saliva de tão bravo, o velho

O porco deu um salto que o fez fincar as unhas no edredom. O velho podia sentir seu fedor mesmo àquela distância. Imaginou se seria possível enforcá-lo, pois merecia morte mais lenta que um simples facão no pescoço.

- Porcaria de animal nojento! Deverias orgulhar-se de estar à minha mesa!

E, como se fosse mágica, o “um porco qualquer” pela primeira vez respondeu:

- Róin-róinc!

É, o inferno... era mesmo o inferno. O velho desejou não ter comido tanta gordura em vida, assim não teria enfartado e não estaria ali, com um porco insolente respondendo-lhe os insultos.

- Ainda bem que ainda tens o sisal no pescoço! Será mais fácil pendurá-lo na...

- Róin-róin! Roinc!

O velho respirou fundo e esticou o braço para alcançar o bicho, ignorando o fato de ter sido interrompido por um porco. O porco empurrou as mãos dele com o focinho gelado e sentou-se na cama, bufando irritado.

Ora, pois, quem haveria de acreditar? Estava sendo desafiado por um jantar! Um jantar e nada mais do que isso!

O velho já rangia os dentes preparando-se para uma nova investida quando o porco pulou da cama e saiu correndo. Correu até um canto do quarto e grunhiu virado para o velho perplexo. A cabeça mexendo de cima para baixo como se propusesse um duelo.

Antes que o velho pudesse alcançá-lo, já disparava novamente. O porco correu entre as pernas dele, num oito bem feito e, num pulo, parou sentado na cama de novo.

Então o velho compreendeu. Era uma brincadeira! O bicho estúpido não passava de um filhote tonto que queria brincar. Talvez não tivesse enfartado, no fim das contas, era apenas muito azarado.

Enquanto pensava o que faria com “aquilo”, cometeu o erro mais grave possível, aquele que todo abatedor considera regra número um: nunca olhe nos olhos!

O velho olhou. Olhou e viu.

Lá estavam elas, duas azeitonas brilhantes que piscavam para ele. Eram tão expressivas... tão vivas... tão ingênuas... tão... tão inocentes.

Droga, pensou.

Aproximou-se mais devagar. O porco não se mexeu. Cada passo que dava o velho era uma nova conquista. Mas o porco não parecia mais querer brincar. O velho finalmente estava perto suficiente.

Um estalo forte fez-se ouvir.

Era o tapa que o velho dava naquela bunda rosa e suja de barro do próprio jantar.

- Ande, bicho estúpido! Já lhe tirei o sisal e abri-lhe a porta! Foge logo, que a sorte lhe sorriu!

Bateu mais uma vez, e o porco só se mexeu o suficiente para retomar o equilíbrio.

- Que mais espera que eu faça?! Comida não tenho que tu eras meu jantar!

- Róin-róinc!

O porco novamente empurrou a mão do velho, dessa vez foi como se implorasse para não apanhar mais. Droga de bicho estúpido.

Bateu mais uma vez. A própria mão latejou de dor. O porco não se mexeu.

- Fique aí então. Azar o seu!

O velho deu de ombros e decidiu jantar a maçã vermelho sangue que teria usado para enfeitar o porco. Depois trataria de expulsar o bicho da casa.

Lavou a maçã, secou-a, preparou a louça e os talheres. Quando voltou à mesa derrubou a garrafa de vinho que levava. Sentiu o sangue subir-lhe à cabeça e o queixo cair. Sentado em sua cadeira, da sua sala-de-jantar, da sua casa, estava o porco estúpido!

Balançou a cabeça, fatiou a maçã em dois, sentou-se em outra cadeira e ceou na agradável companhia do porco... vivo.

Descobriu mais tarde que tratava-se de uma porca, fêmea. Deu-lhe um nome. Banhou-a, enfeitou-a com um laço no pescoço, comprou um travesseiro cor-de-rosa sob medida.

E as coisas continuaram a ser como sempre...

Ou quase como sempre. Eram agora, todos os dias, o velho e um porco, o primeiro vivo e a segunda também. Aliás, o primeiro mais vivo do que nunca, pois, se prestar atenção, o leitor há de notar um leve e discreto sorriso em meio àquela face de papel de seda molhado. Quem dera aos porcos terem ao menos uma chance de responder os comentários numa mesa de jantar. Quem dera aos porcos terem a chance de fazer-se ver aquelas azeitonas brilhantes e inocentes.

Quem dera também a todos os velhos do mundo ter a chance de cear em companhia do próprio jantar... dessa vez, vivo e agradecido... ou viva e agradecida, para fazer jus também às fêmeas.

“Talvez realmente tenha enfartado...”, concluiu finalmente o velho, “...mas esqueceram de mostrar-me o caminho ao inferno. Esse é sem dúvida o paraíso."

- Não concorda, minha cara?

- Róinc-róinc! – e a porca abanou o rabicó rosado, contente e viva, como um filhote de porco deve ser

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

AMIGOS

Não é que eu seja um apreciador de acampamentos masculinos, mas os caras me convidaram e eu não tinha mesmo aonde ir, há anos ando por aí sem ter o que fazer e então fui. Não fiz nada do que eles faziam: pescavam, falavam de mulheres, de proezas, e, pior, falavam de futebol, eu não entendo nada de futebol e assim, enquanto o assunto prosseguia cada vez mais edificante, e eles bebiam suas cervejas, tiravam peixes da água do riozinho, alguns dos quais devolviam à água depois, outros iam se debatendo para uns baldes, xingavam-se quando alguém falava alto demais, eu fui recolhendo umas folhas e fazendo diferentes chás, experimentando seus sabores, olhando para meus amigos e me sentindo... distante deles. Não fisicamente distante, porque nem gosto de andar muito no mato sem companhia, mas ocorre que a fala deles ia me dizendo cada vez menos respeito, até que me joguei ao chão, próximo à fogueirinha e tirei um cochilo, embalado por sussurros que mencionavam calcinhas, pênalties, juízes que roubam, técnicos bundões e mulheres que se fazem de difíceis.
Acordei e eles ainda estavam por ali, nem tinham percebido um barulho que vinha do mato. Se fosse um acampamento na América do Norte, eu pensaria que um urso, atraído pelo fogo e pela possibilidade de um lanche fácil, vinha nos visitar.
Mas era uma vaca.
A vaca surgiu por entre as moitas, distinguiu-me dos demais, me olhou de um jeito profundo, eu gostei desse jeito dela, me levantei um pouco porque também quis ficar alerta, vá que fosse um touro e disparasse, pisasse em cima de mim, era bom estar esperto, foi quando ela me disse: sou uma vaca, seu tolo. Não gostei de ela ter me chamado de tolo assim de cara, para em seguida me dar conta de que havia alguma coisa de muito errado em uma vaca falar comigo. Há que observar que ela tinha um jeito doce de me chamar de tolo, um tom de voz... herbívoro. Olhei para os caras, e eles seguiam fazendo tudo igual, nem notaram a vaca, já estavam mesmo bem bêbados e eu tive que perguntar a ela como é que, sendo um animal, conseguia falar. Não pareceu achar relevância na minha questão, mas mudou o tom de sua fala e disse que precisava de ajuda. Eu não sou um cara mau, ajudo quem me pede um troco no sinal, crianças desamparadas, mendigos solitários, homens que foram chutados pelas mulheres, pelos patrões e até pelos filhos, mulheres abandonadas, velhos sem família. Nunca pensei em ajudar uma vaca, mas não é por isso que deixaria de me esforçar. Perguntei o óbvio, o que ela precisava e ela contou que estava para ter um filho. Dei um pulo, não gostei nada da ideia, detesto sangue, jamais seria bombeiro, policial ou taxista justamente para não ter que atender partos, foi a primeira coisa que me ocorreu de dizer, e ela respondeu: Não seja estúpido, faço meus partos sozinha. Já tive onze filhos, nunca ninguém os viu nascer. Não gostei de ser chamado de estúpido, mas gostei de ter sido tranqüilizado quanto ao resto: só de pensar na grossura do cordão umbilical a ser cortado, na quantidade de sangue e no tamanho da placenta que ela talvez pudesse me pedir para enterrar, já me embrulhava o estômago.
Nada disso, ela continuou. Meu filho vai nascer e eu preciso de ajuda é depois. Não quero que mais um filho meu vire vitela, quero ser livre e dar liberdade a ele, e por isso preciso de um homem, porque não tenho alicate para cortar cercas. Ah, era só isso, cortar cercas pode ser tão fácil, não sei mesmo como touros, cavalos e tantos bichos se mixam para uns fiozinhos de arame. Fui até a camionete, passei por cima de dois corpos roncantes ao lado de garrafas vazias, me certifiquei de que tinha as ferramentas e, ao voltar, a vaca tinha desaparecido. Cogitei de ter sonhado, pensei nos chás de folhas estranhas que havia ingerido e tratei de voltar a me deitar. Não sei quanto tempo passou, mas já havia cantos de pássaros e uma cor azulada na noite, quando tomei um chute na barriga. Levantei de um salto e ali estava a amiga e seu filhote. Então era tudo verdade, havia uma vaca, e a vaca cumpria tudo o que prometera, o bezerro ali, de pé, todo lambido, como guri do interior no primeiro dia de aula. Ele me achava tão esquisito quanto eu achava toda aquela história. A vaca falou sorrindo: os meninos têm seus amigos imaginários, depois crescem e deus é o amigo imaginário dos homens grandes. Eles não suportam viver sozinhos a dura realidade que criam para si e para os outros, não aceitam a ideia de viver num pó do universo. Ok, ok, a vaca me considera um tolo estúpido idiota, mas não precisa me atacar com filosofias.
Ninguém mais ouvia a vaca, percebi que a voz dela entrava direto no processador do meu córtex. Então, amiguinha, qual é nosso próximo passo? Qual é o teu grande problema de ficar na fazenda? É tudo tão bonito aqui, esse silêncio do campo...
Ficar na fazenda? A minha vida na fazenda se resume ao seguinte: fico horas com as máquinas nas tetas me sugando até fazer feridas. Entopem-me de químicas cancerígenas para produzir mais, apesar de que o câncer vai para os homens que então apelam noite e dia para o amiguinho imaginário, que não os leve para junto dEle (são amigos de seus deuses, mas querem ficar aqui, longe deles). Para que eu sempre tenha leite, me inseminam artificialmente, sabe como é, né? Não tem nenhum touro por perto, que me escolha, que me namore, eu nem sei quem é o pai dos meus filhos. Mas eles nascem, e depois que eles nascem, mal bebem o colostro e são tirados de mim. Seus gritos de dor me perseguem noite e dia, eles me chamam e não podem me escutar. Eu também grito. Eles são levados para o mais estúpido dos confinamentos, preparam-se para ser vitelas.

Ohh, carne de vitela, saborosíssima, tenríssima. Vejo a moça, tão chic, sentada com seu lindo vestido no restaurante igualmente chic, aonde só vão pessoas dignas, ricas, cheias de bons modos e de bom gosto: ela crava o garfo no pequeno pedaço de músculo do meu pequeno filho que não chegou a conhecer a luz do dia, que passou seis meses fechado num cubículo, impedido de se movimentar para não endurecer os músculos e para a moça dizer: que carne maciiiiiiia, derrete na boca! O rapaz a sua frente diz: eu gosto também, mas prefiro quando tem mais sangue no molho. Tem que cuidar o colesterol, ela diz preocupada com a saúde do namorado, a gente deveria comer mais peixe e carne branca, mas vitela, acho que vitela também é bom.
Vi toda a cena, não só essa do casal sofisticadinho, mas pensei nos peixes que meus amigos deixaram afogar-se no ar, nos churrascos que fazemos todo mês, nos bifinhos e guisadinhos do dia a dia, foi duro então olhar para a vaca, saber que toda aquela ânsia por viver e salvar seu filho iria ter fim quando a enfiassem num brete, sua cabeça sobre a bunda das outras, tentando buscar um ar no alto, uma visão privilegiada do que haverá na frente, o olho arregalado, a certeza da dor e do fim. Ela respondeu tentando me tranqüilizar: nós vamos conseguir. Olha aqui, eu lhe disse, tudo bem que estamos falando assim de cabeça a cabeça, mas vamos combinar que as coisas que eu “falo”, você escuta, mas as que eu “penso” são só minhas, tá bom?
Peguei o alicate, peguei um serrote e, por pura precaução, uma espingarda que eu não tinha a menor ideia como usar, mas que poderia impressionar a vaca e lhe dar confiança. Para onde vamos? Atravessar o rio, ela disse. Olhei para o barquinho dos meus amigos e não concebi como vaca, bezerro e eu caberíamos ali. Bobão, eu vou nadando. Sempre me ofendendo, sempre me ofendendo. Apesar de que bobão até que é meio carinhoso, não me importei tanto e era bom saber que as chances de morrer afogado diminuíam, eu não sei nadar. O bezerrinho foi atrás da mãe e eles chegaram antes de mim. Entramos na mata, andamos até o dia ficar bem claro. Cortei três cercas, subimos e descemos, nos embrenhamos em corredores, saímos em descampados, deitamos enquanto o danadinho tomava leite. Cheguei a pensar em pedir uns golinhos, mas ela já não ouvia os meus pensamentos conforme o combinado e então eu tomei água do rio. A indireta funcionou, e ela me disse: adultos não precisam de leite, leite é alimento de bebês e para isso cada bebê tem a SUA mãe. Eu também entendi a indireta, os bebês não deveriam tomar o leite das OUTRAS mamães. É isso que fazemos com as vacas: tomamos-lhes o leite. Tomar é um verbo que tem dois sentidos e os dois sentidos fazem sentido no que se refere ao leite das vacas.
Ia tudo muito bem, nós já tínhamos andado muito, atravessado muitas fazendas. Como uma tal história poderia ter um final feliz? Está claro que não poderia. Uma camionete se aproximou de nós em alta velocidade, mandou que parássemos, nós somos pacíficos, um homem tolo-estúpido-bobão, uma vaca gorda e dócil, um recém-nascido cansado. Os homens desceram do carro e nos examinaram. Interessaram-se mais pela minha amiga, reconheceram a marcação de suas ancas, reconheceram a cabanha, me ignoraram completamente e trataram de a atar à camionete. Pedi-lhes que, por favor, não fizessem isso, ela estava cansada, não conseguiria acompanhar um carro, que o bebê estava sem forças. Eles não me ouviam e seguiam a atando, falavam de outros assuntos, riam, fumavam. Arrancaram o carro e ela não conseguia andar, ia arrastada, o bezerro correndo atrás da mãe, em desespero. Tomei-me de fúria, decidi ser forte nem que fosse nos meus momentos finais. Arremeti-me contra um deles que ficara a pé, engatilhei a espingarda e me pus a disparar. Alguns deles correram, e em minutos, não eram mais três, mas passavam de vinte e vinham contra mim. Sem saber manusear a arma, errei muitos tiros, mas matei uns três ou quatro. Depois lutei corporalmente e acreditei ter quebrado um ou dois pescoços. Fui ficando cada vez mais forte, batia em um, em outro. Os da camionete voltaram para acudir os companheiros e a essa altura eu também já não tinha forças. Deixei-me cair e olhei pela última vez para a vaca, e ela então se pôs a me agradecer: não lute mais por mim, já foi tão bom assim, isso que eu aprendi com os homens de ter amigo imaginário me deu forças para chegar até aqui, morrerei lutando para ser livre, tenho um filho que sabe que não sou eu a abandoná-lo. Obrigada, muito obrigada... por nesta noite ter sido meu amigo imaginário.

Diferentes

Uma porca asseada
Um papagaio discreto
Uma lesma eficiente
Uma galinha fiel
Um cavalo gentil
Uma anta inteligente
Uma serpente bondosa...

Animais
decididamente
não são como gente

domingo, 24 de outubro de 2010

Korban

.
Korban é a palavra hebraica para "holocausto" ou "sacrifício". Os sacerdotes da religião judaica, até o ano 70 d.C., realizavam sacrifícios de animais no Templo de Jerusalém. Ainda hoje, outras tantas religiões seguem realizando matanças de animais. Até quando?


Korban

O pequeno cordeiro havia nascido em um canto qualquer do quintal e, agora, passados meses de feno e repouso no estábulo, acompanha a caravana que, enfim, após longa viagem, chega a Jerusalém. Seu caminhar tem o ritmo imposto pelo puxar da corda que traz amarrada ao pescoço, e quem assim o guia é Iochanan, o mesmo Iochanan que, certo dia, muito cedo, indo ao pátio buscar lenha para o fogo, encontrara a ovelha a lamber a única cria daquela sua primeira parição, o Iochanan que, então, muito afoito, voltara aos pulos para o interior da casa, anunciando ao pai e à mãe o que, para ele, era um acontecimento dos mais extraordinários, desses capazes de roubar o sono e povoar a mente de indagações por vários dias: de onde viera a substância necessária para que se fizesse a partir do nada? Se tinha um balido tão estridente, por que não se ouvia na época em que ainda estava dentro da barriga? E era, de fato, um balido dos mais agudos o que se escutava quando Iochanan, dando voltas no poço, punha-se a correr atrás do recém-nascido ou quando, ao contrário, era ele que saltitava atrás do menino, desajeitado e aprendiz. A mãe o repreendia, que deixasse o filhote quieto, mas Iochanan tinha certeza: eram exclamações de contentamento. Quando, enfim, se cansavam, gostava de pegá-lo no colo e sentir a lanagem amena e clara, como só podem ser as coisas que ainda não se contaminaram com o mundo.

Apesar de sonolentos, os dois andam rápido, seguindo os peregrinos mais à frente, pois assim exige a expectativa de Iochanan: quer logo contemplar a cidade, conhecer o templo, entender o que lá acontece. Conforme dissera o pai às vésperas da partida, havia completado treze anos e, por isso, já podia realizar serviços religiosos junto com os homens da casa. Vais conhecer o sagrado, assim lhe falara.

Súbito, os olhos de Iochanan descobrem que ver Jerusalém significa ver o templo, e ver o templo é o mesmo que ver Jerusalém, pois a enorme edificação, ocupando um ponto elevado da paisagem, reflete, em seu mármore branco, a luz rascante da aurora e, com isso, espalhando inescapáveis cintilâncias rubras, ofusca todas outras construções dentro dos muros da cidade, fazendo com que pareçam nada mais do que pedras soltas e sem forma. O pai de Iochanan ergue o braço, indicando o destino; a caravana, fôlego renovado, avança.

A manhã é pouco mais que uma promessa; mesmo assim, pessoas ganham as ruas, e muitas se deslocam em direção ao templo, como se dele proviesse um mistério imantador. Enquanto, mesmerizado, atravessa as estreitas vias, sobre as quais se debruça o velho casario ocre, Iochanan quase deixa escapar o cordeiro, que, de repente, como se algo o espantasse, traciona a corda e projeta-se para o lado. O menino o detém a tempo, abaixa-se e, afagando-lhe a cabeça, tenta tranquilizá-lo. Em meio ao burburinho crescente, escuta, então, a voz do pai, o qual, dezenas de passos adiante, percebendo o atraso do filho, o chama com insistência.

O grupo, que congrega membros da família de Iochanan e outros homens da aldeia onde moram, perto de Cafarnaum, alcança a muralha sul do templo, onde está o portão principal. Assim, de perto, tudo é ainda mais esplendoroso, mal cabe no olhar, e o garoto surpreende-se ao perceber que não mentiam ou sequer exageravam os mais velhos quando contavam que a construção era ornada com ouro e prata e tampouco quando afirmavam que as duplas colunatas pareciam não ter fim. Logo na entrada, um homem alto, vestido de branco, com um uma mitra de mesma cor e uma faixa escarlate amarrada à cintura, achega-se ao pai de Iochanan. Durante a conversa, mais de uma vez, Iochanan nota que o pai olha para trás, em sua direção, e, em certo momento, talvez julgando que a discrição já não fazia mais sentido, aponta para o filho ou – assim pensa o menino – para o pequeno cordeiro que se roça em suas pernas, balançando o rabo. Iochanan aproxima-se um pouco, aguça os ouvidos e escuta algumas palavras esparsas ditas pelo pai e seu interlocutor: oferenda pacífica, é preciso verificar se não há defeito algum, o banho ritual. O pai vira-se de novo para trás e gesticula a Iochanan para que se aproxime. O menino faz menção de amarrar o cordeiro a um pilar, mas o pai, de imediato, com novo sinal, indica que o traga junto. Mais uma vez o filhote parece relutar; entretanto, cede à força daquele que o vem conduzindo a dias, assim como Iochanan obedece às instruções paternas. O homem de branco fixa o olhar no cordeiro, coça a longa barba, e assim permanece por vários segundos; abaixa-se, então, para ver de perto o focinho, as ventas e as orelhas. Eu o entrego de volta nas escadarias, na subida para o pátio, diz ele, enfim, enquanto se afasta, levando consigo o animal, que, agora, traz as patas rijas, negando movimento. Iochanan chega a dar alguns passos acompanhando-os; porém, logo sente a mão do pai cair sobre o ombro: vem, meu filho, precisamos nos purificar.

Encontram, mais adiante, naquele pavimento, grandes tanques de água límpida onde, separadamente, homens e mulheres imergem, proferem bênçãos ancestrais e põem-se a esfregar, com as mãos atormentadas, cada palmo da pele, como se dela quisessem expurgar não apenas o suor abundante e a poeira do deserto, mas também a memória de todas as imundícies que, desde os humores uterinos, a haviam conspurcado. Iochanan já não enxerga o cordeiro, tampouco o homem de branco. Enquanto, imitando o que fazem os demais, despe as principais peças da vestimenta, ficando somente com a fina túnica de linho, e desce os degraus que levam à água, o menino olha mais uma vez ao redor, procurando o filhote. Nada, apenas uma confusão de pernas a preencher o interminável corredor. Nesse instante, Iochanan se desconcerta ao aperceber-se de que seria incapaz de reconhecer as feições do homem de branco, pois não havia olhado o seu rosto, algo o impedira, e, agora, só agora, ele descobre: esse algo era medo.

Saem do banho. Os homens da caravana estão agora mais circunspectos, trocam poucas palavras, devem estar preparando o espírito para a adoração, adivinha Iochanan, enquanto sente a água já a evaporar, aniquilada pelo ar quente e seco. Tudo está bem, e o pensamento lhe escapa em um murmúrio. Gosta de ouvir isso e repete várias vezes, à guisa de prece.

Sente alívio quando, de fato, junto a uma ampla escada, reencontra o cordeiro. O homem de branco está com ele; Iochanan, todavia, mais uma vez, não tenta lhe mirar as faces. Ao devolver o animal ao pai de Iochanan, passa-lhe algumas instruções que o menino não compreende, mas tudo parece corriqueiro para o pai, que assente a cada observação do estranho. Quando o homem se afasta, o garoto pede ao pai que o deixe conduzir o cordeiro.

No alto da escadaria, chegam a um pátio. O sol tomou conta do firmamento com inesperada presteza, e, no amplo terreno aberto, já estão numerosos vendedores com suas mesas. Em meio à algazarra e sob o olhar dos soldados do Império, eles trocam as várias moedas que os fieis, vindos de todas as partes, trazem e apregoam cordeiros, cabras, pombos. Para que servem todos aqueles animais?, pergunta-se Iochanan. Não tem tempo para elaborar uma resposta, pois uma sensação de frio nubla-lhe a mente quando vê um vendilhão de dedos rudes e nodosos agarrar, dentro de uma gaiola lotada, duas pombas miúdas, que tentam em vão abrir as asas, e passá-las a uma velha ansiosa que, sem cuidado algum, as joga em um saco de estopa e, então, expõe os cacos amarelados dos dentes, sorrindo em agradecimento.

Neste pátio, Iochanan depara com vários homens trajados da mesma forma que o homem de branco. Andam de lá para cá, passam orientações aos peregrinos. São os sacerdotes, compreende. Não tinha enxergado o rosto do primeiro, mas, agora, vendo um exército deles, percebe que são todos o mesmo: idênticas barbas agrisalhadas, idêntica altivez, idêntica urgência de movimentos e – assustador – idêntico semblante.

O pai está de novo ao seu lado e começa a explicar, apontando um prédio austero, retangular, cujo topo aparece mais adiante, por detrás de muros: a casa de Deus, o coração do templo, fica ali, mas, para chegar até lá, temos de atravessar mais muros, cruzar outros pátios – o recinto sagrado, onde arde eternamente o candelabro de sete braços, precisa ser protegido.

Transpondo mais um portão, sobre o qual avisos entalhados nas pedras alertam aos gentios que permaneçam afastados, sob pena de morte, chegam ao pátio reservado aos hebreus, onde ainda se permite a circulação das mulheres. Contudo, ali não permanecem, pois o destino é o mais interno dos pátios públicos, o pátio dos homens. Nele, a quantidade de pessoas é bem menor; porém, mesmo assim, o caos reina. Dirigem-se ao fundo, onde há um enorme portão de bronze entalhado, cujas folhas semiabertas permitem entrever, finalmente, a morada de Deus. Mais longe, no entanto, não podem ir; dali em diante, apenas os sacerdotes.

Salta à vista de Iochanan o grande altar quadrado que ocupa quase todo o espaço além do portão de bronze, bem em frente à entrada do coração do templo; estranha os moirões de pedra e as argolas de ferro que jazem ao pé da estrutura e as fogueiras que crepitam sobre ela. O menino escuta alguém comentar: sempre me contaram que, por graça do Criador, este espaço das oblações não tem mau cheiro e tampouco atrai as moscas. Então, Iochanan compreende, e a revelação ganha força com uma lufada mais intensa de ar que lhe atira um odor nauseabundo nas narinas. Será possível que não sintam? Será possível que tenham viajado todos esses dias para algo assim? Por impulso, espia o cordeiro ao seu lado, e este lhe responde fitando-o com olhos líquidos. A mão do menino fraqueja ao segurar a corda.

Um sacerdote se aproxima com a mão esticada, solicitando que lhe passe a corda. Iochanan não se move; mal consegue respirar ao ver aquele fantasma diante de si, o presságio funesto que encarna. Impaciente, o pai toma o cabresto e o entrega ao novo homem de branco, o qual, de imediato, conduz para dentro o cordeiro e o amarra em uma argola entre dois daqueles moirões, que mais parecem lápides. Iochanan cerra as pálpebras, não quer testemunhar a barbárie que se anuncia, mas fica repetindo-se, na obscuridade, a última cena capturada pelas pupilas: o cordeiro tentando manter a cabeça erguida, gemendo feito uma criança, balindo e esticando a língua cinzenta. Iochanan fica assim por um instante que parece esgarçar-se indefinidamente, tentado fingir que não está ali, mas os sons não param, e, por isso, não há como cessar o pesadelo. Decide enfrentar, precisa fazê-lo, é tão culpado do que está prestes a acontecer quanto todos os outros que o cercam. Não pode fugir. Abre os olhos.

O cordeiro ainda está ali deitado, agora mais silencioso, quase imóvel, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados se alçarem com mais rapidez que de costume. O sacerdote baixa gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada, ergue, com a mão direita, uma faca de lâmina reluzente, grita uma bênção e, girando o braço em arco para fazê-la cair sobre a vítima, corta-lhe a garganta. O animal treme, o rabinho endurece e para de abanar. Escancara a boca, mas berro algum se ouve, pois irrompem as trombetas rituais, tocadas pelos sacerdotes perfilados junto à entrada do habitáculo de Deus. Cada estertor do cordeiro abatido provoca em Iochanan um igual tremor nas entranhas. Enquanto o sangue se derrama em profusão, o pequeno corpo se recusa a aceitar qualquer justificativa ou desculpa, resiste, e parece discutir com o Criador até o último alento. Os olhos aquosos do cordeiro agora são vidro. Opaco.

Deseja contemplar o sagrado, sentir a paz e a misericórdia de que falam os hinos entoados; porém, ante o horror, Iochanan enxerga apenas o monocromatismo monstruoso de uma nuvem vermelha que lhe barra a visão, e invade-lhe a certeza lancinante de que são apenas palavras ocas, repetidas por automatismo, e que sobem aos céus junto com a fumaça negra das piras para encontrarem idêntico destino: perecer ao vento, na diluição irredimível do que é apenas humano, cruelmente humano.

Depois, o animal tem a pele arrancada, o tronco aberto e as entranhas retiradas. As vísceras escorrem, feito cobras arroxeadas se enredando cegamente pelo chão. Um sacerdote asperge o sangue recolhido em uma vasilha dourada pelos quatro cantos do altar, e outros seis pegam os despojos e, correndo, os carregam para cima, atirando-os à gula do fogo alto das piras. O cheiro de carne queimada engrossa o ar.

Se existe um Deus bom, então até a mais humilde das coisas vivas deveria ser salva, reflete Iochanan enquanto se dirige à saída, junto com os demais; se Deus é bom somente com os fortes, se não há justiça para os mais frágeis, para aqueles que sequer têm voz, para as pobres criaturas que são oferecidas em sacrifício à humanidade, então não existe esta tal benevolência, esta tal justiça. O menino sente uma dor insuportável nas têmporas. Um suor gelado escorre pelas costas.

Os homens da caravana agora conversam amenidades e riem. Como é possível?, brada o espírito de Iochanan. Será possível que nada sintam? Para seu desespero, então, o pai se aproxima, trazendo um sorriso e uma pergunta: como te sentiste, meu filho? Estás feliz por conhecer o sagrado?

A voz do pai está distorcida, a frase termina em um zumbido. Iochanan tenta falar, mas a boca se resseca, e um engulho torce-lhe o estômago; sente que os joelhos estão ainda firmes por milagre, que seus músculos parecem, agora, tão moles quanto as vísceras do cordeiro morto. Na convulsão que, a muito custo, tenta conter, no paroxismo daquele asco, ouve repetida a indagação, agora mais áspera: não me dizes nada, Iochanan? Não enxergaste a Deus no santo templo?

Abaixa os olhos, responde que sim e começa a vomitar.