sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Boi

Daniel Kirjner

“Um rapaz de dezessete anos morre, vitima de Bullyng”. Uma manchete incomodou o canto da primeira página de um jornal, ou de todos. A pouca relevância dada ante a magnificência do acontecido impressionou. Um folhetim destes sensacionalistas foi o único com foto de capa, discorrendo uma matéria mais ou menos assim:

Estudante é brutalmente assassinado em Barretos.

Carlos Miguel Pereira, de 17 anos, foi brutalmente assassinado no fim de semana por colegas de turma. Seu corpo apresentava escoriações nas áreas genitais, cintura, ombros, costas e pescoço, dando sinais de asfixia. A polícia não comentou o caso, mas uma testemunha ocular, que não quis se identificar, afirmou que o acontecido foi fruto de uma brincadeira de mal-gosto por parte de um grupo de amigos (nomes serão ocultados por questões de segurança):

“Estávamos na festa na casa de B.(...), quando eu e meu amigo F. percebemos uma bagunça no quintal. Quando fomos olhar o que estava acontecendo, vimos que ninguém mais estava prestando atenção na banda country que tocava por lá. Havia uma rodinha em que estavam quase todos da festa, levantando suas cervejas e gritando. Quando nos aproximamos da roda e pudemos ver algo, ficamos os dois chocados: B. estava montado sobre Carlos Miguel, que estava pelado e preso por uma corda que lhe passava pelo pescoço e era amarrada na cintura pelo saco. Carlos urrava de dor e se retorcia, chorando sem parar. B., fingia que era pião e que estava montando nele. O pessoal em volta achava tudo aquilo o máximo. F. e eu e algumas outras pessoas saímos de fininho da festa, com medo que aquilo acontecesse com a gente.(...) Sabe, o Carlão sempre foi bem alto e bem gordo e, cá entre nós, bem devagar. Era repetente de ano e não era muito inteligente. Os caras fortinhos não deixavam ele em paz. Como ele não reagia por medo, tinha que agüentar os caras humilhando, chamando de Frankenstein, Pé Grande, ou simplesmente Boi. Mas nunca achei que fossem capazes de fazer o que fizeram”.


Um choque! Ninguém acreditava pelas ruas que jovens de classe média alta, com boa educação, haveriam de pregar peça tão cruel. Mas mesmo com a obviedade da violência, sempre surgem – de todos os lados – os advogados do diabo. Uns comentaram que era uma brincadeira, que não tinha intenção de matar, por isso deveria ser crime culposo. Aqueles jovens não tinham noção do que faziam. Suburbanos que eram, sempre foram protegidos pelos pais e jamais tiveram sentido a repercussão de seus atos. A culpa era de Holywood, dos jornais e das revistas e, principalmente, da TV e de seus heróis de ação! Afinal, de onde mais eles tirariam essas idéias?
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De onde mais eles tirariam essas idéias?