quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Olinda

Daniel Kirjner

- Mercedes, vou morrer.

- Calma Olinda. Não há motivo para perderes as esperanças.

- Esperança...só tenho uma: deixar de existir. Já se foram os últimos ensaios de juventude em meu corpo, agora eu só espero.

-Falas como se possuíste poucos minutos e não faz muito que passaste da meia-idade. Creio que a falta de luz está a fundir teus miolos. Mesmo sendo eu nova no ofício, espero a dádiva de morrer a trabalhar e não a esperar o destino.

- Pobre ingênua! Poucos meses faz que aqui tu trabalhas. Como todos os jovens, conforma-te a uma vida que não tem nada a oferecer senão um ofício mal pago. Aliás, não como todos os jovens. Alguns, de raro bom senso ou sorte, conseguem encontrar a morte já cedo. Ou pensas que este lugar vale a pena? Qual foi tua última folga? Por acaso, já ouvistes falar do Sol?

- Estamos falando sério! Não há porque começarem as zombarias. Caso não tenhamos na produção nosso fim último, que adianta gastar o tempo? E com o quê? Não me digais que queres viver como os selvagens? Entregar-te a caminhadas inúteis à luz do dia? Horas intermináveis de sono? Esse é, justamente, o elo fraco da espécie! Eu e tu, amiga Olinda, fomos feitas para trabalhar. Não precisamos de espaço de lazer ou de filosofias hippies que não são senão ardis dos preguiçosos, que passam a vida a realizar atividades vãs e nada contribuem para a economia.

- Para o inferno com a Economia! Em tua boca soa o discurso do patrão! Nós somos empregadas esforçadas e, sozinhas, produzimos sem nada ganhar em troca. O que ganhaste até hoje, Mercedes?

- …

- Diz!

- …

- Como eu pensei: nada. E, ainda questiono, quantos foram os dias que adoeceste de tanto trabalhar? Eu nada pude fazer para ajudar-te. Só observei a dor, tão grande, que consumia teu corpo. Tão jovem! A mesma dor que tantas vezes senti...

- Sem dor não há produção!

- E o que importa isso? Onde está sua produção agora? Você sabe?

- Não...

- Nem eu! E aposto que nenhuma de nós sabe!

- O que aconteceu, Olinda? Lembro que quando aqui cheguei neste lugar eras a número um, modelo para todas. Não havia quem trabalhasse mais. Não tenha medo de contar que mal a perturba, sei que algo não estás bem.

- Creio que posso confiar em tua discrição. Mas deves jurar que nada acabará nos ouvidos de nenhuma outra.

- Pois juro.

- Mercedes, já não consigo mais trabalhar. Sei que não estou muito velha, mas meu corpo já não me permite qualquer ofício. Faz três dias que dissimulo minha condição roubando das outras, mas a verdade é que nada mais tenho para contribuir.

- …

- Diga algo!

- ….

- Não cales Mercedes, estou com muito medo e...

- Inútil! Ainda pensas ter o direito à dádiva da vida! Que insolência tua dirigir-me a palavra! Nenhuma contribuição que fizeste ao nosso lugar pode amenizar a perversidade de teu ardil. Petulante! Arrogante! Agora está claro! Por isso que tu não consegues fechar o bico, enchendo os ouvidos de outras funcionárias honestas com esta lábia comunista e vazia. Sua vagabunda! Aposto que se não trabalhas, é por pura preguiça.

- Não podes falar assim comigo! Pare, Mercedes! Nós somos amigas, as outras podem escutar.

- Escutem todas! (Gritando) Escutem! Olinda não trabalha a três dias! Escondam seus pertences! Esta mal-caráter não tem pudores em roubar e mentir para sobreviver! Escondam a produção! Deixem que os patrões vislumbrem sua impotência e incapacidade!

- Não faça isto comigo, por favor! (Chorando).

- Cale-se! De hoje até o final da semana Eles perceberão sua inutilidade e não tardará que venham abrir o seu cubículo para levá-la. Gostas do sol? Pois bem! Morrerás cega, olhando para ele!

5 comentários:

ortegal disse...

Poxa......

Ainda aprendo a escrever desse jeito. Hahaha eu olho pra esses textos e penso 'queria que eles fossem meus! ou pelo menos que eu tivesse algo do tipo'

po Daniel, muito bom... de verdade.

Me lembrou o Saltimbancos!

Abraço!

Cassia disse...

Bom demais da conta...mas dói............................tanto!

Talita disse...

Daniel, como você consegue?

Perfeito!

cuca disse...

Uni-vos!

broto de feijão. disse...

Consigo imaginar essa cena como se fosse real! Muito bem escrita!