terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Parlamentar e o Cavalo

Daniel Kirjner

Luiz Amâncio não passava de um político indigestamente ordinário; daqueles com a falácia adestrada para o ofício parlamentar. Seus caprichos eram tão mundanos como secretos. Nunca havia sido condenado nem por afanar chicletes, apesar de sua consciência ter olvidado delitos piores. Naquela terça-feira de junho, em rotina rara para os deputados federais, foi trabalhar na Câmara. Talvez, nem em seus sonhos menos medíocres tivesse projetado o que estava por acontecer.


Adentrou ao congresso com a convicção de que contaria algumas mentiras, reforçaria “amizades”, para depois mergulhar no luxo de uma vida mansa. Trabalhar era como ir ao dentista: um mal bimestral e necessário, com fins de preservar a fachada. Mas a melhor justiça, mesmo que rara, é produto do acaso. Vejam vocês que, durante o discurso de Luiz Amâncio sobre um reajuste aos servidores do executivo, algo de inexplicável aconteceu: passos decididos como de cascos batendo no chão soaram, rompendo por sobre a sua fala. Mesmo com tamanho eco que ostentava a casa da lei federal, jamais se havia ouvido nos corredores ruído parecido, como patas de cavalo marchando sobre granito. Amâncio não pode continuar discursando com o barulho incômodo, tendo espichado o olhar para ver o que, ou quem, era responsável pelo barulho de cavalaria.

A resposta para essa pergunta deu-se em segundos, e qual não foi a surpresa de seu óbvio conteúdo: tratava-se, factualmente, de uma cavalaria. Mas não era qualquer uma! Aquela que adentrava ao Congresso Brasileiro não era montada por cavaleiros ou amazonas, mas rumava independente por sobre as salas oficiais do poder instituído. Eram cavalos únicos; todos os vinte que desfilaram na sessão plenária com autênticos ternos Armani. Luiz Amâncio, velho deputado e pecuarista, pensou que aquilo era uma piada da oposição. Contudo, essa impressão foi logo abatida pelo inesgotável estarrecimento causado pela primeira frase pronunciada pelo equino que se destacava à frente:

- Boa noite, senhores Deputados dessa ilustre Casa.

Quem pensa que houve o mais discreto ensaio de resposta ao cavalo, engana-se. Nenhum parlamentar, assessor, guarda ou funcionário da limpeza ousou dizer palavra. O justificado transe coletivo era tão material quanto as paredes da sala. Alguns ilustres políticos brasileiros, conhecidos pelo carisma e austeridade, chegaram a salivar compulsivamente, em sinal de estado de choque. Mas tal impacto não impediu o cavalo de prosseguir, apesar de mostrar-se bastante encabulado com a situação:

- Creio que Vossas Senhorias não estão muito acostumadas com minha espécie de interlocutor. Bem, para falar a verdade, nem sei ao certo como consigo expressar-me, modéstia à parte, tão bem. O fato é que até ontem eu relinchava pelado e hoje venho aqui, papear em tão ilustre Casa, trajando terno e óculos escuros.

Tomado de uma valentia, imbuído pela impulsividade, Luiz Amâncio enfim questionou o chefe dos cavalos. Indagou, revoltado, sobre que armação estava acontecendo, se aquilo era algum tipo de brincadeira sem graça. Ainda efusivo, bradou aos quatro ventos que esse tipo de palhaçada enfraquecia a democracia, pois brincadeiras assim não deviam ter lugar onde nascem as leis. O cavalo, calmamente, respondeu:

- Tenho orgulho de ser um animal e, apesar de não ter muita prática em discursar, o faço de maneira séria e responsável.

O parlamentar retrucou com o argumento que julgava mais sensato: o de que era fazendeiro desde que nascera e tinha certeza de que cavalo não falava! Tal frase gerou uma risada debochada entre a peculiar cavalaria, que preencheu todo o salão. E, para ironizar o deputado, o grupo de animais entoou – em coro – o “Hino à Bandeira”, de Olavo Bilac e Francisco Braga; aquele mesmo, do “pendão da esperança”. Amâncio não pode conter uma discreta inveja ao constatar que aqueles seres não só falavam com grande desenvoltura, como eram mais patriotas e versados que ele. Constatando o impacto daquela solene canção, o cavalo que estava à frente retomou a palavra:

- Poderíamos continuar por mais alguns minutos e cantar o Hino Nacional, o da Independência e – quem sabe – até um sucesso de Roberto Carlos, mas não é para isso que viemos. Na verdade, nosso fim em tão ilustre Casa é bem mais político que performático. Como os senhores ainda ignoram, não somos nós apenas os animais não humanos que sabem falar. Se saírem à rua no dia de hoje verão que todos, desde os pequenos répteis até as vacas, têm a capacidade de se comunicar verbalmente. É inútil perguntar a qualquer um de nós o motivo de tal acontecido, nem o engenho que nos tornou assim, pois não fazemos a menor idéia. O certo é que todos acordamos nesta madrugada entupidos de cultura, no sentido mais antropológico da palavra - antropologia tal que, em vista dos fatos, terá de ser renomeada. A única coisa que vos asseguro ao certo é que o excelente gosto para roupas é privilégio dos cavalos, apesar de nossa pele já ser um estouro!

Novamente, o carismático líder provocou o riso relinchado de seus correligionários. Luiz Amâncio, simplesmente embasbacado, fez um esforço colossal e demorado para, no microfone, pedir que aquela bela peça de montaria, em sua concepção, prosseguisse. O cavalo, atendendo ao reclame do parlamentar, continuou:

- Pois bem, Senhores, agora, que todos já sabem (ou ainda não compreenderam) o que acontece, irei apresentar quem vos fala. Nós somos os Houyhnhm, nome inspirado em uma grande estirpe criada na literatura humana infantil. Fomos eleitos pelos representantes de todos os animais, em pleito democrático, para aqui, neste recinto, falar e reivindicar algo que deveria ser direito de todos. Creio que tal vitória nas urnas não é fruto apenas de nossas habilidades políticas, mas sim de uma certa admiração que – apesar de não se traduzir exatamente em respeito – sua espécie tem pelos cavalos. Se aqui aparecessem cachorros ou coelhos, outros seres afetivamente ligados aos humanos, provavelmente seriam tratados como crianças pequenas e jamais poderiam propor coisa alguma. Quanto aos animais selvagens, hoje são por demais raros para assumirem o risco da viagem que empreendemos. As galinhas e bois, por medo de Vossas Excelências, não se candidataram e – por serem a maior parte dos representantes – coube a nós apenas a promessa de dar voz a suas causas para sermos eleitos. Fato é que nossa demanda é bastante simples: queremos representação legal, na Constituição deste ilustre Estado, para podermo-nos defender de pessoas ditas humanas. Na Carta Magna deste ilustre País, somos somente designados como parte do ecossistema e, apesar de estar lá estabelecido que não devemos ser maltratados, a escravidão e a exploração dolorosa são institucionalizadas e fomentadas pelo Governo. Portanto, como somos seres sencientes, capazes de todos os sentimentos possíveis e alguns novos incutidos pela dor, reivindico Emenda Constitucional! Que todos os animais tenham individualidade e capacidade de representação legal em qualquer instância desta República!

Luiz Amâncio, pecuarista radical e político experimentado na arte do convencimento, não pode escutar aquilo inerte e, nesse momento, vislumbrando a ameaça ao seu estilo de vida, intercedeu. Afirmou que os tribunais já andavam abarrotados somente com causas humanas; que a Câmara se afogava em projetos pendentes e mal conseguia votar o Orçamento da Nação. Tomado pela coragem que o desespero fomenta em uma presa ameaçada, o deputado apontou o dedo na direção dos cavalos e indagou, bradando, sobre quem eram os animais para aparecerem de repente e reivindicar algo que as pessoas tanto tempo levaram para construir. Ao ouvir tal pergunta, a comoção tomou conta dos equinos. O Houyhnhm chefe, que agora ofendera-se profundamente, com lágrimas escorrendo por sua larga face, respondeu emocionado:

- Vocês querem saber se temos direito de reivindicar algo? Pois bem! Não queria apelar para o sentimentalismo, nem para o choque que a injustiça causa nos seres que têm compaixão. Mas como esse homem não faz menção de demonstrar respeito, falarei o que há muito tempo calamos, pelo simples fato de – mesmo sentindo cada sensação – não soubemos como expressar! Querem saber quem somos, ilustres parlamentares? Somos aqueles que, por séculos a fio, carregamos a Humanidade nas costas, entupidos por arreios apertados, chicoteados ao mínimo sinal de cansaço. Também fomos atração de rodeios! Molestados em um estranho ritual humano. Eu posso dizer, caro senhor, que minha genitália foi amarrada com fim de causar-me espasmos de dor. Tudo isso para que um cowboy passasse alguns segundos sobre minha costas e uma multidão de hipócritas ensandecidos risse de minha desgraça. Esse mal não é só meu! Também foi partilhado por bois que, de tão traumatizados pela dor, não puderam se apresentar aqui, em face de Vossas Excelências, assim como não vieram as galinhas de granja, privadas violentamente de seus bicos para que não se matem no desespero de um recinto fechado que abriga tantos animais, onde muitos não sabem como se mover e só puderam ver a luz solar como um borrão, na iminência da morte. Perecem, talvez neste momento, porcos urrando de dor, como se seus pulmões sangrassem em gritos pela vida. Isso sem mencionar o estupro, prática tão desprezada até pelos criminosos de sua espécie. Para assegurar a produção em série de cavalos, vacas, galinhas e porcos, entre outros, as genitálias de nossos pais foram violadas e manipuladas sem consentimento, muitas vezes sob profunda dor. O leite e o ovo que vossa sociedade consome vem de seres mantidos em constantes gestações, sofrendo o impacto disso em seus corpos, para alimentarem outros que não seus filhos. Por essas e outras que pedimos justiça, ou pelo menos um direito de resposta aos males que nos afligem!

Luiz Amâncio, tomado de cólera, grita indignado que aqueles animais desejavam a morte humana! Colocou que era absurda a idéia de uma nutrição saudável composta somente por vegetais e que as pessoas fazem todas aquelas coisas porque elas são da maior importância cultural e alimentícia. O cavalo, teimando em segurar o pranto que provinha da lembrança de anos de sofrimento, retrucou, fingindo calma:

- Não só é possível para um humano alimentar-se e ser feliz sem a nossa dor, como muitos dos seus já vivem dessa forma. O que peço, sem retribuir a violência que nos foi dada, é que, daqui por diante, os senhores passem a respeitar o que diz sua própria Constituição, como primeiro passo para que, em um breve futuro, sejamos não apenas parte do ecossistema, mas indivíduos perante a Lei. Creio que, agora que possuímos as faculdades da fala e do entendimento, e, como diria Kafka por meio de Pedro Rubro, temos a “inteligência de um europeu normal”, seja-nos permitido pelo menos o privilégio de não sentir dor e o direito de ir e vir.

Nesse momento, oficiais do DOE invadiram o Congresso, alvejando a balas todos os Houyhnhm. Luiz Amâncio foi tomado por um alívio profundo por ver findado, pelo menos por ora, o medo que lhe preenchia. Quanto à compaixão pelos virtuosos cavalos, não teve. Já era seu costume eliminar, com as próprias mãos, a vida de outros daquela espécie que ficavam velhos e não mais serviam de montaria. Em sua cabeça, a lógica era quase a mesma: aqueles cavalos morreram porque ficaram por demais inteligentes e não mais serviam de montaria. O que aconteceu depois desse evento não me cabe relatar aqui, neste diminuto conto. Mas não finalizarei esta prosa sem dar uma pista do futuro: muito mais havia para ser dito e, mais ainda, para ser ouvido.

Daniel Kirjner

2 comentários:

andreff disse...

Excelente texto Daniel. Realmente a humanidade hipócrita tem que ouvir muitas verdades que os animais e o planeta tem a dizer. Meus parabens!!!!

broto de feijão. disse...

Muito bom :~
Como eu já disse, me lembrou Revolução dos Bichos, no sentido de ter humanizado os cavalos...

Muito bom, vou ver se consigo colaborar com o blog um dia! continue! =*