segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Feijão Mágico

Autor: Dennis Zagha Bluwol

Uma vez recebi uma estranha carta não assinada. Dizia que havia se afeiçoado muito por opiniões minhas publicadas em certo texto, onde expunha minha visão à favor da libertação dos animais das mãos de seus carrascos humanos. Dizia que não podia dizer por carta, mas havia um porquê muito profundo neste interesse em minha pessoa. Combinamos um encontro em um famoso parque de São Paulo.
Pequeno, com uma longa barbicha e ar bem simpático, apresentou-se como “o Gênio”. Contou-me sobre sua história de vida. Havia também vivido uma vida de clausura graças à humana sede de poder. Viveu por centenas de anos confinado em uma espécie de lamparina, sendo-lhe permitida a saída apenas para realizar desejos daqueles que a possuíram. Pedidos mesquinhos, invariavelmente, como era de se esperar.
Não me contou sobre como escapou desta condição, mas hoje vive livre, sem sair de sua pequena chácara nos arredores da cidade.
Enfim, viramos grandes amigos. Nossas conversas acerca da liberdade e da maldade humana viravam noites, regadas por inacreditáveis chás do oriente.
Após meses de amizade e convivência assídua, percebeu o Gênio que era eu um grande apreciador de feijões e leguminosas similares. Creio que, por ser brasileiro, parte de meus genes são constituídos de arroz e feijão, possivelmente interligados por finas fatias de couve e envoltos por uma grossa camada de pimenta e farinha de mandioca, mostrando, mais uma vez, o processo de adaptação entre códigos genéticos e ambientes. Mais um ponto para os Neo-Darwinistas. Como anarquista não respeito o Estado nacional, mas respeito muito um bom arroz com feijão.
Um dia, estava eu em casa almoçando quando de repente avistei um belo feijão multicolorido. A primeira impressão foi de surpresa, a segunda de medo, a terceira de gozo estético, a quarta de surpresa novamente, a quinta de emoção e a sexta de dúvida. Algo nele me chamava à mordida. Muitas cores se revezavam em um impressionante degrade. Muitos tons pareciam a todo instante se revezar. Algo em mim me levou a devorá-lo. E algo bateu.
De repente, não me perguntem como, estava em um sítio. E meu amigo Gênio estava lá. Havia me concedido a realização de um desejo. Porém, diferentemente de seus métodos da época em que era escravo, não me deixou escolher ao meu bel prazer. Achou ele mesmo nas entranhas de meus confusos neurônios algo que seria de fundamental importância para minha existência. Disse-me para relaxar e aproveitar a viagem. Achei que seu olhar tinha um quê de Timothy Leary e embarquei na onda.
Acordei em outro lugar. Um pasto. Sentado de frente para uma vaca. E a vaca olhava pra mim atenciosamente. Retribuí o gesto e olhei-a nos olhos. Havia algo de diferente naqueles olhos. Senti-me como certo aluno de certo professor-gorila. Após minutos de olhares profundos, parecia que criáramos certa intimidade. Passei a ouvir uma voz. Um canto. Uma voz feminina cantando palavras que conhecia em uma melodia que também conhecia. Para minha surpresa, a vaca deu-me uma piscadinha, como que confirmando que eu não estava ficando louco, ou talvez provando que o estava completamente. Estava realmente ouvindo o que se passava na mente daquela adorável criatura?
E eu continuava a ouvir:

I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
No, I ain't gonna work on Maggie's farm no more.
Well, I try my best
To be just like I am,
But everybody wants you
To be just like them.
They sing while you slave and I just get bored.
I ain't gonna work on Maggie's farm no more.

Parece que possuíamos algo em comum além do fato de adorar comer folhas. Era uma fã do Dylan. Mas havia ainda algo mais naquele canto, que o fazia soar como uma work song de escravos catadores de algodão do delta do Mississipi, ou como os blues cantados por seus - ainda na miséria - descendentes. Olhei para o lado e vi a placa:

FAZENDA MAGGIE & FILHOS
– DA NATUREZA PARA SUA CASA –
LEITE DE VACAS FELIZES

Senti algo que nunca sentira antes, e pus-me a cantarolar com minha nova amiga, sentindo sua dor e ânsia de liberdade. Uma voz cantava How many years can some people exist, before they're allowed to be free? Mas outra entoava How many years can some animals exist, before they're allowed to be free?
Antes da primeira gota de lágrima, estava novamente em casa, defronte ao prato de comida. Triste, profundamente triste por saber que minha companheira de sentimento e gosto musical estava ainda em seu cárcere em algum lugar do mundo. Mas, ao mesmo tempo, feliz por olhar para meu prato, um manifesto anti-crueldade.
The times are a-changing? Eu não sei, mas incessantemente me questiono acerca daqueles que ainda alimentam-se do sofrimento alheio: how many ears must one man have, before he can hear animals cry? Se você, caro leitor, sabe que something is happening here, but you don't know what it is, the answer, my friend, is blowing in the wind. The answer is blowing in the wind.

2 comentários:

Daniel Kirjner disse...

Sensacional o texto! E ainda mais as referências musicais! Infelizmente, Bob Dylan deixou de ser vegetariano em 1991. Hoje em dia, ele apenas olharia para vaca e entoaria:

"Go away from my window!
Leave at your own chosen speed.
I'm not the one you want, babe,
i'm not the one you need.
You say you're looking for someone
never weak but always strong,
to protect you and defend you
whether you are right or wrong.
Someone to open each and every door,
but it ain't me, babe,
no, no, no, it ain't me, babe,
It ain't me you're lookin' for, babe.

ajudaeê! disse...

excelente texto!