quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A vegana arte de apreciar obras de arte

Autor: Dennis Zagha Bluwol
(Texto presente no Zine-Livro "Escritos Éticos & Picaréticos")

A vida vegana. Certeza de ser algo bom, mas ando sempre incomodado com o que aparece por aí. Tenho culpa eu se a normalidade é tão assombrosa? Sou ranzinza eu pela violência ter virado o status quo?
Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que não passa nem na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que essa flautista de gestos e expressões tão doces é uma devoradora de cadáveres? Será que eles festejam uma boa temporada com um grande churrasco? Será que a gentileza que transmitem na música existe no modo como convivem? Possuo uma amiga instrumentista que já tocou em orquestra. Disse-me que o ambiente das orquestras é o mais competitivo possível. Dói-me saber que gente que é capaz de expressar tamanha beleza possa ser tão vil e egoísta. E as crinas? Não há outro modo? Dizem que os materiais sintéticos não produzem um som tão bom. Mas vos pergunto: e o que o cavalo tem a ver com isso? Nunca vi um cavalo apreciador do impressionismo francês.
E os museus? Já me incomoda o fato de termos sido adestrados a achar normal que arte fique em museu, para ser analisada por meia dúzia de especialistas e discutida no café. Ou logo esquecidas. Mas, para mim, reles apreciador sem formação, além de tentar entender ou me libertar para sentir o que uma obra de arte pode me transmitir, fico pensando a cada quadro: será que esta tinta é de origem animal? Sei que na época medieval se fabricava tintas com ovos e pigmentos. Mas nunca vi uma galinha cubista. Já vi galinhas amontoadas em cubos de barras de ferro, mas cubistas, nunca.
E cinema? Adoro cinema. Mas e as películas dos filmes cinematográficos? São feitas com gelatina de origem animal. Tutano de boi assassinado. Já vi um boi que lembrava o Woody Allen, mas isso não me deixa menos preocupado. Agora há cinema digital, mas muitos acham que não é a mesma coisa. Pessoalmente, não sei, mas creio que os bovinos não estão muito ligados nas possibilidades de fotografia nas diferentes mídias.
Mas não pense que essa preocupação é de caráter esnobe: concertos, museus... E no sambão? Também gosto de um bom samba, mas e toda aquela percussão feita de pele? Não há como justificar. Falar em pandeiro com pele de gato, além do sempre companheiro do samba, o churrasquinho, que pode também ser de felino, são já piadas consagradas, quando não realidades. Não sei o que é pior.
A violência é tão arraigada em nossa cultura que não se pára para questioná-la. Na verdade, ela não é nem percebida. Seres vivos e sencientes facilmente viram arcos de violino, tambores, pandeiros, tintas, filmes fotográficos. Que espécie de arte é esta? Nazistas faziam belos abajures com pele de judeus. Ingleses fizeram belas bolsas para tabaco com saco escrotal de aborígines tasmanianos. Nós fazemos belos filmes com tutano de boi e belas sinfonias com crina de cavalo. E eu não vejo uma diferença substancial. A violência é a mesma. Só as espécies que mudam. E isto não justifica uma alteração de moralidade.
Ei, sapateador, esses sapatos são de couro, não?

4 comentários:

Daniel Kirjner disse...

Adorei!
Seriam eles sapateadores ou simples pisoteadores?A técnica e a destreza com os pés torna a textura menos cadavérica? Acho que não!Viva o cinema digital e toda arte sem crueldade!

Talita disse...

Muito bom

andreff disse...

muito bom este texto.Eu nem sabia que tinha crina de cavalo em instumentos de música clássica! :(

broto de feijão. disse...

Muito bom! Eu também não sabia da crina... sempre adorei ir a orquestras... é horrível né? O cinema é minha paixão declarada, mas regada a sangue e surdez quando diz respeito à crueldade... sem contar quando animais se machucam nos filmes... há diretores que "prezam pelo realismo" e de fato matam animais (las von trier). até quando vamos chamar tais coisas de arte?